“O inferno é os outros”

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 “O inferno é os outros”, do filósofo Jean Paul Sartre, foi uma frase que ouvi nos tempos de faculdade que ficou de forma perene na minha memória.  

A frase ficou, em meio às frágeis relações, para correr atrás da espera e aproximar o apocalipse do recomeço. Ficou porque a realidade superou a ficção. Ficou porque a supremacia da vontade provocou amnésia sob o peso das verdades menores. Ficou porque provocou contrapontos e contradições. Ficou porque permite voltar ao Éden. Ficou, enfim, porque sempre haverá florestas das quais é preciso escapar para não ser engolida. 

Sem coincidências, essa semana me deparei com o filme “Deus da Carnificina” de Roman Polanski que apresenta a montagem teatral do lado menos agradável da humanidade, a chamada hipocrisia. Seria a revés humana que já inicia falhando. É um filme que revela o tropeço das palavras.

No filme, um casal se dirige à casa do outro porque o filho foi agredido pelo filho dos proprietários da casa. Inicia-se uma reunião, semelhante ao protocolo dos sábios do Sião, polidamente à base de educação e controle emocional. Busca-se uma reparação, mas só se encontram as verdades difíceis de suportar ou o fingimento de uma harmonia urbana. Talvez o esquecimento do perigo.

Durante a sequência das falas, a humanidade ali desanda, revelando um mundo selvagem e sem linearidade, sem hierarquia, sem honorabilidade, sem normas de civilidade, apenas o pódio barbárie das relações imperfeitas.  Prevalece aquele momento do vale-tudo a nosso favor, sem ideologias ou máscaras.

Na maioria das relações, que não sei, se é por glória, proteção ou ambiguidade dos nossos interesses, o posicionamento do politicamente correto termina se corrompendo sobre o véu das nossas feridas.  Seria o instante, quando o outro nos ameaça e só nos faz enxergar um quadro branco, mas borrado, sem algo novo. E mesmo existindo olhares cúmplices, com mais semelhanças que diferenças, a afinidade se esvai. 

A verdade é que existem dragões externos que respigam perfumes pela narina e fingem que dormem no escuro, mas também há internamente o nosso terror noturno ou convulsão, mesmo ouvindo as mesmas canções de ninar.  É uma justiça que vela falsamente o sono.

Por um lado, deseja-se a morte dos facínoras, pois os loucos racionais se denunciam e ficam inertes no chão, presos em suas memórias, entupidos de lítio e valproat,  enquanto os idiotas felizes permanecem no rivotril como “cidadãos de bem” na justiça que se vinga.

Por outro, nem sempre existe à prorrogação da justiça prévia, do equívoco de detalhes, nem mesmo a parceria com a esperança durante o naufrágio existencial. Nem mesmo, a ética ou a moral se impõe, visto que se desentende da justiça, frente à fragilidade do que nos ronda. 

Assim, a moral nem sempre passa a ser a regulamentação da nossa vontade, frente a capacidade de oferecer espinhos, independente do tipo de flor que pode refletir no mesmo espelho. É como beijar de olhos fechados e abrir os olhos pelo medo do martírio de um ciclone, mesmo apaixonado. 

Penso que talvez a justiça não possa olhar a si própria para não encontrar a figura de Narciso, pois ela reconhece no outro o que conhece em si mesmo. Diria que o crime de fuzilamento cura as ilusões tão necessárias, tanto quanto o equilíbrio contemporâneo. Equilíbrio que não resiste à primeira ventania do abençoado coração selvagem.

Se observamos o nosso cotidiano, dificilmente encontraremos Hitler, Jack, o Estripador, Lampião, James Holmes, Coringa, Nina, Carminha ou qualquer outro justiceiro que mata no caminho, mas encontramos a descostura dos diálogos verossímeis, humanos, cobertos de segundas ou falsas intenções, como se a bondade estivesse em crise de abstinência.

E na maioria das vezes não há sinais de loucura, mas apenas uma programação fora de grade, sem a nossa inserção, e o crime particular caminha entre a animalidade humana e o ser primitivo que se reveste de pintura cromada para que o verdadeiro eu não seja revelado.

Tenho me indignado com a maldade, mas tenho me desgastado com a vernissage da vida coletiva que tem sempre uma possibilidade de crime, longamente guardado, a espera da palavra ou frase interposta equivocadamente. 

Há um homem que não sabe quem é. Há um homem que pode ser entregue a maldade do outro.  Mas, há um homem pária esperando a oportunidade de gerar uma onda de ódio aos judeus, como descrito no livro “O cemitério de Praga” de Humberto Eco. Sua esperança é se tornar mais vivo.

Há perda da dignidade. Há variedade de caminhos e nem precisamos estar no cinema perante o matador do Colorado para considerar que o normal e até aceitável, é o termo da ”síndrome do dia seguinte”. E na espera de vivermos um pouco mais ou melhores, desejamos a solução de resposta para o dia, ou mesmo para o ontem. E aí, passamos o trator, deixamos de regar as plantas, acabamos com as promessas.

Dependendo da urgência da nossa necessidade, sejam físicas ou emocionais, fabricamos a melhor solução e quem sabe o melhor amor, o melhor desamor ou desafeto.  O termo pode ser estranho “fábrica”, mas a pressão contemporânea, a fugacidade e as soluções temporárias de altivar a própria voz parece ser o caminho mais fácil para a continuidade da ordem ou da rotina que desejamos, do efeito mundo sem contradições, sem espetáculos de desordem.

E só enxergando a calamidade, a dúvida e o acúmulo de cruéis coincidências, nos armamos, desconfiamos, protegemo-nos. E atiramos de forma literal para nos proteger da escuridão, sem ao menos procurar a luz do abajur que está ao lado. Fugindo ao amanhecer, sem despedidas.

E o ódio ao bullying não precisa ser real, o abandono não precisa acontecer, o amor pode não findar, o trabalho se perenizar, a amizade pode continuar ali, mas a fraqueza derrama o protetor solar, como uma andorinha despassarada à espera de uma oportunidade de se manifestar à luz do dia.

Esquecemos o dom gratuito da natureza, aceitamos apenas como percebemos as ações e criamos inimigos invisíveis em pleno século XXI, resguardando o desejo de matar, mas recriando um mundo de um ou outro, sem privilégios, sem intenções de proximidade.

E no final, deveria caber apenas Clarice Lispector: “Onde a maldade era fria e intensa como um banho de gelo. Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles...”


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