Trabalha mucama, trabalha

OPS - Editorial

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É somente comigo ou alguém mais tem a sensação de que nossa vida seria muito melhor se não tivéssemos preocupação alguma com dinheiro?

 

Digo isso porque várias vezes já me peguei pensando em formas mirabolantes para conseguir dinheiro rápido em quantidade considerável para poder ter uma suposta “estabilidade financeira” que me proporcionasse todo tempo que eu quisesse para as coisas que realmente gosto, sem, então, estar necessaria e obrigatoriamente estar comprometido com meu trabalho.

 

Confúcio dizia que, “no dia que encontrares um trabalho do qual realmente gostes, deste dia em diante não trabalharás nenhum dia mais em toda vida”.

Acontece que adoro meu trabalho. Amo mesmo. Só que acontece também, que amo muitas outras coisas. Já disse isso em outra ocasião: se houvesse uma única palavra para descrever a minha pessoa, esta seria com certeza “eclético”. Gosto de muitas, numerosas, inúmeras, infindáveis coisas. Uma segunda palavra? Psicodélico. O Houaiss explica.

 

Outros momentos, estes mais contemplativos, reflexivos, me fizeram pensar em uma forma de acabar com o dinheiro. Acabar com a moeda. Ainda não deu certo, mas também não comecei a mexer os pauzinhos.

 

Ao mesmo tempo em que esta preocupação com dinheiro e formas de ganhá-lo (e a todos nomes atrás dos quais ele se esconde – segurança, estabilidade financeira, tranqüilidade, previdência) é universal (parece que afeta a todos em uma determinada fase da vida), também é sazonal - nos afeta somente em determinadas fases da vida. Ou será que alguém já viu uma criança de 5 anos, em cima de sua bicicleta, gritando para o amiguinho:

 

“Agora não posso brincar contigo, porque tenho que trabalhar. O Leão ta mordendo mais e eu tenho que compensar com horas-extras”.

 

Ou um velhinho de 85 anos, já aposentado (‘inda bem!), em sua casinha, regando as margaridas do jardim e pensando:

 

“Se eu aplicar na IBM, acho que minha rentabilidade vai ser maior que da Gerdau. Ou será que é melhor apostar nos Adubos Trevo? Vou falar com meu consultor”.

 

Cabe sim, um pouco-bastante a nós decidirmos o momento de reduzir o ritmo e viver mais em função dos amigos, familiares, pequenos prazeres e eventos significantes em detrimento de ganhar-ganhar-ganhar para comprar-comprar-comprar, construir-construir-construir e exibir-exibir-exibir/ostentar-ostentar-ostentar.

 

É a velha e surrada idéia do Ser ao invés do Ter.

 

Mais uma vez, escrevo aqui algo para minha própria reflexão. Para este seu vassalo, escrever ajuda a colocar os pingos nos próprios “is”. Ajuda a pregar um rumo, estabelecer uma meta. E para você, escrever serve pra quê?

 

(publicado originalmente em 12 de julho de 2005, em http://simplicissimo.com.br/outras-secoes/editorial/trabalha-mucama-trabalha, mas republicado hoje pois continua fazendo um sentido desgraçado para mim e, imagino, para muitas pessoas.)



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Ulisses Adirt |07-01-2010 02:07:48
avatar Bem, querido amigo, sou tb mto eclético e, por isso, trabalho como um louco. Danço e ensino os outros a dançarem, leio, escrevo, pesquiso e, principalmente, ensino História. Faço tudo isso pq amo cada uma dessas coisinhas. Claro que, para fazer tudo o q gosto (e não o que paga melhor), faço sacrifícios. Escolhi viver sem dinheiro. O q eu ganho é o q eu organizo na ponta do lápis para tocar minha vida. Não largo essas minhas amadas atividades por nada (tanto q, qdo necessário, já exerci várias delas sem ganhar nada).

Não ter dinheiro me priva de outras coisas q eu gostaria. Raramente viajo, não consigo bancar meu instrumento musical e não tenho filhos nos meus planos. Mesmo assim, sou absurdamente feliz e não quero outra vida. Não vou deixar de fazer o q gosto só para poder bancar algo q quero (prefiro ir guardando lentamente até conseguir o dinheiro necessário para algo q quero muito – pelo menos enquanto eu vou guardando o dinheiro, vou sendo feliz com as outras coisas).

Não sei se é o caminho certo, mas é um caminho q gosto de trilhar.

Grande abraço.
Rafael Reinehr  - Certíssimo! |07-01-2010 07:35:30
avatar Do meu ponto de vista, Ulisses, é o caminho certíssimo. Não deixar de viver e valorizar aquilo que não nos custa nada (mas nos dá tanto prazer) enquanto lentamente poupamos para comprar algo que também nos deixará muito satisfeitos e realizados.

Eu não sabia que estavas atrás de um instrumento musical! O que você toca (ou quer tocar)?
Ulisses Adirt  - re: Certíssimo! |07-01-2010 10:31:47
avatar Eu tocava órgão eletrônico/teclado quando era sustentado pelos meus pais. Hoje, faz mais de 10 anos que não posso sustentar o vício e estou mais destreinado do que político em ser honesto. Algum dia consigo comprar um e bancar umas aulinhas para poder voltar a estudar sozinho.
Hélio Sassen Paz  - Uma Sociedade Complexa |27-01-2010 11:13:08
Rafael,

É extremamente complicado encontrar soluções alternativas e economicamente viáveis que possam substituir a atividade para a qual me dediquei durante tanto tempo. A escassez e os "nãos" na cara vão minando a resistência e a confiança. Sobre isso, escrevi aqui: http://heliopaz.com/2009/08/28/apelo-a-mec-capes-cnpq-ppgs-em-comunicacao-e-universidades-em-geral/

Muito do que disseste se explica de maneira direta, contundente, dinâmica e sem cientificismos a partir do brilhante trabalho da Annie Leonard e o seu competente ciberativismo: http://www.storyofstuff.com/getinvolved.php

Recentemente, li A Cauda Longa do Chris Anderson. Assim que passar o concurso do Trensurb, vou ler Free. Depois, Cultura da Convergência do Henry Jenkins e You Tube e a Revolução Digital, do Henry Jenkins.

Enquanto não conseguir ser professor universitário, quero conseguir encontrar uma forma de tornar o meu conhecimento aceitável e rentável segundo os valores do "mercado". Como a urgência do escravo aqui é pelo vil metal, dispender tempo e uma verba da qual não disponho em concursos públicos que pagam bem e oferecem 15 vagas p/250000 candidatos ou prestar vestibular pra começar outra graduação em uma área de maior demanda não seria uma medida prática.

O problema é que não existe nenhuma herança genética ou exemplo próximo de empreendedorismo ou de empresariado de qualquer porte nem na minha família, nem entre os amigos mais próximos. Ao mesmo tempo, não tenho coragem de arriscar o que não tenho.

Por outro lado, estou muito contente porque a Lúcia passou no vestibular pra História na UFRGS. Aos 42 anos, sem estudar desde 1993 e trabalhando como auxiliar administrativa seis dias por semana, mesmo assim, ela conseguiu!!! Isso me dá muito orgulho e força pra seguir insistindo e não desistir do que eu quero.

[]'s também à Carol e ao Benjamim,
Hélio
Rafael Reinehr |27-01-2010 12:01:04
avatar Em primeiro lugar, meus parabéns sinceríssimos e entusiasmados pela Lúcia! Diga que estou eufórico por ela! E vai ser muito bom falar sobre História (como diria Neila, "Adooooro!") com ela em todos nossos próximos encontros!

Sobre a cauda longa, gostaria de conversar dia desses contigo via MSN ou skype para dizer a você como aproveito e pretendo intensificar meu aproveitamento da referida "terminação rabal".

Ah! E parte disso tem a ver com a Carol e o Benjamin! Acho que pode se aplicar a você também! Um abração a você e os melhores desejos sempre (menos no futebol, é claro... rsrsrs)
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