Para quê serve a música - Parte 1

Arte e Entretenimento - Música Desconcertante

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Tudo na vida cumpre um propósito. E qual seria a função da música? Qual é o parafuso correspondente à arte musical nas engrenagens do maquinário maluco que é a nossa realidade?

Para quê serve a arte? Você já parou para pensar nisso?

Vamos tornar as coisas um pouco mais simples. Vamos reformular a pergunta a partir do principal assunto desta coluna: para quê serve a música?

Quando eu faço esta pergunta para as pessoas (geralmente com a intenção de ensinar alunos ou de esculachar chatos), recebo dois tipos de resposta: 1) "música serve para divertir" e 2) "música serve para expressar os sentimentos".

Veja bem: a música de fato cumpre estas duas funções. Mas estas são funções secundárias; se música se resumisse a apenas estas duas colocações, teríamos um cenário cultural ainda mais sombrio e desqualifiicado do que o que temos hoje. Isto é igual a você contratar um arquiteto para projetar a sua casa: ele vai conceber o projeto e vai colocá-lo no papel. Quando você diz que a música serve para expressar sentimentos ou divertir, é a mesma coisa que dizer que a função do arquiteto é fazer desenhos no papel.

A música enquanto arte é concebida de certas formas que transcendem o processo auditivo. É preciso muito raciocínio para conceber música que seja também uma obra de arte.

Algumas pessoas associam atividades de raciocínio a resultados frios e sem sentimentos. Ó cacete, isto é um mito que precisa ser embrulhado e jogado privada abaixo. Ouça uma peça do Bach. É comum ver pessoas comentarem como a música de Bach é bonita e emocionante. Tudo bem, eu concordo, Bach pode ser emocionante. Mas Bach também era absolutamente racional quando escrevia suas peças. O contraponto em Bach é extremamente calculado, e de repente isto resulta em uma música que as pessoas consideram emocionante. Mas o que traz valor à esta música não é apenas o fato de ser emocionante, é o fato de ser solidamente construída.

Ora, mas porque estou enchendo o seu saco falando essas coisas? Simples: você pode se deparar com verdadeiras obras de arte ao longo de sua vida e julgar tudo um lixo. Você pode escutar uma peça que no futuro será analisada como uma das grandes obras do século e falar que é ruim. Só porque... soa feio.

Sim, a arte pode ser "feia". E o feio pode ser bonito. E o bonito pode ser feio. Porque o que você acha bonito é o que você aprendeu que é considerado bonito. Mas muitas vezes esse bonito é artisticamente feio, é brega. Muitas vezes o que é feio na verdade só é estranho. E o estranho pode ficar bonito, freqüentemente é questão de você se acostumar. Ou às vezes o bonito é bonito, o feio é feio e ambos são arte de altíssima qualidade.

Aí vem a pergunta que não quer calar: "mas se o feio pode ser bonito e o bonito pode ser feio, como vou poder dizer se uma música é boa ou ruim?"

Santa pretensão! Porque esse desejo de associar o gosto a tudo o que é bom? Porque o desejo de dar sempre um parecer? Você quer ser refinado? Quer ser chique? Quer ser uma "referência" no assunto e escrever artigos para a revista Veja? Você pode ser tudo isso e continuar não entendendo nada de música ou de arte; basta ter dinheiro, bons contatos e manter a pose. Muitas pessoas "cultas" não entendem nem de arte, nem de nada. As colunas sobre arte dos jornais e revistas são na maior parte das vezes vitrines de mediocridade, chafarizes de verborragia produzidos para afastar as pessoas da arte. Essas pessoas "cultas" querem tornar a arte um luxo, um símbolo de status para as elites. Esqueça isso.

Se seu desejo é compreender música de forma sincera, eu te digo o seguinte: para julgar se uma composição é "boa" ou "ruim", é necessário um aparato intelectual. É necessário que você estude não só a técnica da música, mas também a sua linguagem e sintaxe. É preciso que você consiga analisar uma partitura. Resumindo: é necessário estudar música profundamente.

Freqüentemente, as obras musicais apresentam aspectos que podem ser considerados positivos ou negativos. Isto depende de quem analisa a música. Procure por obras onde os aspectos positivos são apontados de forma unânime por artistas, acadêmicos, críticos e especialistas com boa formação teórica. Lembre-se também que a unanimidade pode errar. Nunca acredite nas coisas por completo, escute os argumentos e reflita sobre eles. Um bom jeito de você escolher o que escutar é ler artigos sobre música e ouvir opiniões de pessoas que conhecem e estudam música. Claro que se você estudar música também, isso não fará mal algum. Quanto mais você se dedicar a entender as coisas que você gosta, melhor será o seu julgamento. Mas não pense que um dia você saberá tudo sobre música ou arte. Isto é uma ilusão. Isto nunca vai acontecer. Suspeite sempre de quem dá uma de "enciclopédia ambulante". Muitas vezes estas pessoas passam informações erradas ou imprecisas. Parte do que elas falam pode corresponder a informações verdadeiras, porém nunca aceite uma informação sem confirmar tudo por si próprio através de pesquisas.

Para você confiar no que estou dizendo, vou deixar bem claro: eu não sei tudo.

Eu não sei tudo !! (Note que eu não respondi para quê serve música. Deixo isso pro próximo artigo, para criar suspense, que nem novelinha. Mas vá pensando aí. Para quê serve música?)

Eu não sei tudo.



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Antonio Santos  - Qualé? |20-10-2009 15:04:56
Exercitar os meus sentires.
Bruno Yukio  - Clique nos hyperlinks |21-10-2009 11:41:40
Ei moçada, clique nos hyperlinks: eu coloquei umas fotos engraçadas relacionados às palavras que estão marcadas.
Até!
Gilberto Agostinho |21-10-2009 12:01:35
avatar Bruno, estou rindo até não poder mais com o trecho "Mas muitas vezes esse bonito é artisticamente feio, é brega" com o hyperlink para o vídeo do Caetano. Seu texto ficou ótimo, simples mas não simplista. Gostei muito do seu tom de voz, modesto mas firme.

E seja muito bem vindo ao OPS!. Estarei sempre dando um pulo aqui para ler teus textos.

Grande abraço!
Gilberto Agostinho
Edmar Deunízio  - Para que serve a música? |01-11-2009 17:25:52
Música é uma necessidade do ser humano e o mais fiel recurso comunicativo com a qual ele pode se expressar!
Leonardo  - Música transcende o entendimento humano. |29-11-2009 23:08:59
:dizzy:

Não basta apenas ouvir ou prestar atenção,a música trancende o nosso limitado pensar e passa a cumprir ao invés de um,vários propósitos.Lendo um pouco sobre neuromusicologia,nota-se que está o desenvolvindo o saber sobre o fazer musical e seus efeitos em nossa vida.Quem estuda música tem conhecimento,mas por outro lado também pode achar que sabe o que é uma boa música,quando isso é muito relativo,o que é bom pra mim não necessariamente será bom pra você e vice-versa.E,recorrendo a milenar sabedoria popular,remeto ao torpe ditado que diz"Gosto é igual a cú,cada um tem o seu".
Fernando Cunha |30-11-2009 11:00:11
avatar A música serve para aquilo que se quer dela. Em outras palavras, na Idade Média servia para louvar a Deus; na Moderna para distrair e mostrar o status dos nobres; na comtemporânea ela serve para... a, sei lá! Apesar dos gênios monstruosos que nos legaram os séculos XIX e primeira metade do século XX, não se sabe muito bem para que faziam isso, destinado a quem... Talvez por isso mesmo a música nesse período seja tão abstrata, tão consciente de si mesma, independente dos anseios das massas, nesse caso a massa da classe alta, já que o proletariado nem sonhava com a produção musical.

Penso que desde a segunda metade do século XX, a música serve para ser vendida para a grande massa, agora sim a ralé. É que há algum tempo já tinham descoberto que não bastava vender para os ricos para dar lucro: quem sustentava o mercado eram as classes subalternas e toda e qualquer produção era destinada aos trabalhadores, ou seja, uma consolidação final do sistema capitalista. Hoje não se preocupa mais com a arte abstrata, a música em si mesma, que nasceu do incentivo da nobreza e teve suas mais fortes expressões no durante as revoluções que condenaram a musica à liberdade, à criação em si mesma, nos termos de Sartre.

Temos hoje portanto a mundialização da música das classes subalternas. Seria ótimo se os "músicos" atuais se preocupassem em produzir arte em cima dessas manifestações populares, mas não: a única preocupação é a venda de produtos fáceis, descartáveis e superficiais, tão próprios de nossos tempos. E aquela música boa, dos tempos da "liberdade"? Essa persiste saudosa nos conservatórios, onde os grandes músicos, tais como os monges copistas, preservam uma arte que já não mais cabe nos modos de produção vigentes, nessa nova e tenebrosa Idade Média imposta pelo capitalismo. Uma arte condenada ao esquecimento e à admiração dos poucos que amam verdadeiramente a música: os músicos.

Renata Rodrigues  - Música |06-12-2009 16:09:35
=D A musiCa espressa amOr :love: ódiO :grr: tristeza T_T ira :angry: a música é elO que nOs aproxima, enlaça, fortifica :zombie: amuh
marco silva |24-12-2009 17:43:37
A música, ao que me parece, simplesmente não é mais a mesma. O certo é que ela foi desviada do seu verdadeiro propósito: de prestar serviço ao espírito humano das sociedades perdidas.
sheila maceira  - entreter, emocionar, expressar, comunicar, educar, |02-01-2010 18:24:41
... e por aí vai. Tenho pensado bastante sobre esta questão do que é e do que não é música. E o "para que serve" acaba surgindo naturalmente nesta discussão. Gostei do artigo: parabéns. Eu também não sei tudo (rs), então vou voltar para conferir o próximo artigo da "novelinha" :)
Bruno Yukio |04-01-2010 09:01:52
Olá amigos! Este comentário é só pra avisar que o próximo artigo já está saindo! Abração a todos!

Random McPèrson |18-02-2010 20:35:33
[comentário pretencioso]A música é que nem a vida: não tem servidão, não tem sentido, ela simplesmente é.[/comentário pretencioso]
Eduardo Marques  - Música ou diletantismo? |14-03-2010 09:34:14
Será que dizer que para entender música é preciso estudar música, não é reduzi-la a puro diletantismo? Se fosse realmente boa, sensibilidade só (que é natural do ser humano) não bastava? Veja bem: o que se estuda em música é só a teoria musical. Teoria não é conhecimento completo. Ou será que já descobrimos tudo o que há para ser descoberto na música?
Bruno Yukio |15-03-2010 10:04:45
Eduardo, estudar música vai muito além de estudar teoria musical.
O gosto, ou como você aponta, a "sensibilidade" não é um parâmetro confiável para se fazer juízo de valores na arte. Este sim é o verdadeiro diletantismo. Lembre-se que diletante siginifica "praticante AMADOR das artes, que exerce a prática por gosto e não por profissão".
O que proponho é justamente uma mudança de mentalidade em relação a essa prática diletante (ou pseudo-diletante). Se isso exige do espectador um conhecimento mais profundo, isto é natural. Pense que as coisas evoluem, e temos que acompanhar esta evolução de uma forma ou de outra. Você provavelmente teve que aprender a usar um computador para escrever esta mensagem; fazemos auto-escola para aprender a dirigir e assim por diante. O conhecimento se acumula, a prática torna-se cada vez mais complexa e exige-se mais capacidade das pessoas que lidam com isso.
A música não deve ser julgada por uma suposta "sensibilidade" que nada mais é do que uma manipulação dos afetos por parte da indústria de massa. O indivíduo sofre esta influência desde seu nascimento até sua morte, e passa a vida toda acreditando na ilusão (romântica, por sinal) da sensibilidade como força motor da arte.
Eduardo Marques |15-03-2010 11:09:44
Eu concordo com você que a música que se vê por aí é pura manipulação de sensações para as massas. É que essa coisa de ter de estudar para entender me parece tão fechada, tão obscura... Eu não estudei música, mas consigo apreciar um Mozart da vida. Também não estudei mais literatura do que a que é ensinada na escola, mas reconheço a fineza de pensamento de Platão ou de uma peça de Shakespeare. Enfim, não defendo a ignorância como segmento cultural, como andam fazendo, mas sou contra a educação como ferramenta de "bitolação". Acho que o pensar por si próprio é fundamental para contruir o conhecimento.
Bruno Yukio |16-03-2010 10:54:45
Não é a educação que é uma ferramenta de bitolação. É o SISTEMA EDUCACIONAL que às vezes assume este papel. Veja bem, são duas coisas diferentes... Você nunca perde quando você adquire conhecimento. Falo de conhecimento de verdade.
O exemplo que você deu do Mozart ilustra isto muito bem: você aprecia uma peça de Mozart a nível hedonista. Mas você também pode apreciá-la num nível intelectual ou racional. Você pode apreciá-la dentro destes 3 parâmetros ao mesmo tempo. Aí sim você pode dizer que "entende" Mozart.
O que estou tentando dizer é que música não é só sentimento e hedonismo. Ela também é razão, estrutura, intelecto e especulação. A função hedonista é muito bem cumprida pelo artesanato. Já a arte exige o intelecto e o raciocínio acoplados ao prazer estético.
Eduardo |27-07-2010 09:52:18
Bruno, confesso que o meu comentário anterior foi escrito de uma forma que pareceu bem idiota, Por isso, só voltei agora, fazendo um esforço para agüentar um esculacho seu ou uma gargalhada muito bem justificada. Mas, já que vc não fez isso, vou explicar melhor o meu ponto de vista.
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Não é que o conhecimento possa ser 'bitolante', mas o que está de comum acordo pelas pessoas como certo, sim. Como é que nós podemos saber que o conhecimento da humanidade de composição musical é completo? É como se todos já soubessem que nota B após nota A em um intervalo X é belo. Se é assim, por que o compositor se dá ao trabalho de compor? Não já sabe todo o mundo o que é bom e belo?
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Eu acho que entender alguma coisa de música deve fazer parte da minha formação e estou, no momento, tentando entender qual é a da música erudita. Será que ela é pra valer e a popular, não? Até agora, a única diferença que eu vi da chamada música popular é que é, em média, um pouco mais chata. Claro, não vou ficar dizendo isso por aí sem base. Comprei, recentemente, um livro sobre história da música de um tal de Otto Maria Carpeaux. O interessante é que, apesar de o título dizer que é história da música, não música erudita, ele parece negar completamente a existência da música popular. E aí?
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Essa coisa de admirar músicas que só são bonitas no papel, de nível hedonístico, racional e intelectual, não sei, não... O racional e o intelectual, dependem, em parte, do que a humanidade conhece até o momento. Aristóteles disse muita coisa sobre ciência que foi considerada racional até alguns séculos atras e, hoje, é só bullshit. Apreciar arte de uma forma racional é ser hedonista quanto à sua imaginação sobre o que é racional na arte, ou seja, só existe o hedonismo. Eu vi uma entrevista com o cara do blog PQP Bach, d'O Pensador Selvagem, em que ele dizia não 'entender' de música, nem ler partitura, apenas aprecia.
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Alienígenas que visitassem a Terra, poderiam, muito bem, gostar da nossa música, ou, se tiverem conhecimentos superiores, achá-la de um provincianismo ridiculamente atroz. "Nota B após nota A em um intervalo X é belo." Eu, se fosse um compositor, só contaria com o nível hedonista de apreciação para a minha arte. O conhecimento é importante, mas deve ser só uma base para a composição final.
Tharyck Ramoniga |26-11-2010 17:46:03
avatar Acho q não existe uma função específica p a música mas sim várias, e está função vai depender muito de pq e quando ela foi feita, mas eu diria q sua função mais importante seria a de expressar sentimentos e fatos q aconteceram ou poderiam acontecer.
Mas eu também não sei tudo =D.
Fernando Cunha  - re: |29-11-2010 12:12:36
avatar
Fernando Cunha Escreveu:
A música serve para aquilo que se quer dela. Em outras palavras, na Idade Média servia para louvar a Deus; na Moderna para distrair e mostrar o status dos nobres; na comtemporânea ela serve para... a, sei lá! Apesar dos gênios monstruosos que nos legaram os séculos XIX e primeira metade do século XX, não se sabe muito bem para que faziam isso, destinado a quem... Talvez por isso mesmo a música nesse período seja tão abstrata, tão consciente de si mesma, independente dos anseios das massas, nesse caso a massa da classe alta, já que o proletariado nem sonhava com a produção musical.

Penso que desde a segunda metade do século XX, a música serve para ser vendida para a grande massa, agora sim a ralé. É que há algum tempo já tinham descoberto que não bastava vender para os ricos para dar lucro: quem sustentava o mercado eram as classes subalternas e toda e qualquer produção era destinada aos trabalhadores, ou seja, uma consolidação final do sistema capitalista. Hoje não se preocupa mais com a arte abstrata, a música em si mesma, que nasceu do incentivo da nobreza e teve suas mais fortes expressões no durante as revoluções que condenaram a musica à liberdade, à criação em si mesma, nos termos de Sartre.

Temos hoje portanto a mundialização da música das classes subalternas. Seria ótimo se os "músicos" atuais se preocupassem em produzir arte em cima dessas manifestações populares, mas não: a única preocupação é a venda de produtos fáceis, descartáveis e superficiais, tão próprios de nossos tempos. E aquela música boa, dos tempos da "liberdade"? Essa persiste saudosa nos conservatórios, onde os grandes músicos, tais como os monges copistas, preservam uma arte que já não mais cabe nos modos de produção vigentes, nessa nova e tenebrosa Idade Média imposta pelo capitalismo. Uma arte condenada ao esquecimento e à admiração dos poucos que amam verdadeiramente a música: os músicos.



...Senhor, como conseguimos mudar tanto de opinião em apenas um ano???
Antonio Santos  - re: re: |30-11-2010 10:19:16
Muito longevo
Me tuíta!
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