Impressões sobre a terra do box de vidro

Mundo - Praguejando

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Caros amigos,

Após um longo recesso, esta coluna está de volta. Mesmo depois de tomar muita caipirinha por preço justo, eu acabei voltando para o Velho Mundo, de onde pretendo continuar a escrever com a mesma regularidade de antes (textos novos todos os domingos). Eu sei que prometi escrever alguma coisinha enquanto eu estivesse no Brasil, mas como todos sabem, aquele calor em pleno inverno, as já citadas caipirinhas e o bando de amigos impossibilitaram tal tarefa. Mas prometo então escrever um texto bacana agora sobre as minhas impressões desta viagem para o Brasil, para compensar mais esta dívida.

Para começar, uma história engraçada sobre a minha ida para São Paulo. Meu vôo partiu de Viena até Madrid, aonde eu deveria esperar apenas uma hora no aeroporto para fazer a minha conexão para São Paulo, mas meu vôo atrasou simplesmente dez horas. Até aí, tudo bem, tive hotel e jantar pagos pela companhia aérea e eu poderia descansar um pouco e chegar bem em São Paulo. Eis então que toda a desgraça começa: minha insônia volta a me atacar, e eu simplesmente não consigo dormir na cama gigantesca e confortável do hotel mil estrelas que me pagaram (não estou sendo irônico). Quando eu ligo a televisão, existiam apenas três opções de canais: dramas em casteliano (língua a qual eu já não suportava mais ouvir depois de tanta discussão no aeroporto), um canal pornô alemão e a CNN, que seria a salvadora da minha madrugada, caso nosso querido Rei do Pop não tivesse morrido no mesmo instante. Então eram estas opções, casais gritando nos dramas, casais gritando no pornô e jornalistas e fãs gritando na CNN. Então este incauto que vos escreve decide que seria legal observar as ruas de Madrid do sétimo andar, aonde eu estava. O bairro não era dos melhores, ficavam perto grandes avenidas e rodovias, tudo no meio do nada, e a vista da minha janela era horrorosa. Então eu penso: "será que de outro ponto a vista não será bonita?". Saio do meu quarto, vou até o final do corredor e descubro uma porta de emergência que dá para uma sacada. Fico lá um pouco, olho a vista (que continua horrorosa) e, quando decido entrar, pimba! A porta não abre! Funciona mais ou menos assim: se em caso de incêndio uma gentil senhorita decidir buscar a bolsa que ela esqueceu no quarto, ela não irá conseguir e, assim, salvará a sua vida. E eu fiquei preso do lado de fora, numa escada de incêndio de metal medonha. Penso que nada está perdido ainda, eu posso descer a escada e entrar pelos fundos do hotel. Nem em sonho... Descer é fácil, agora entrar de volta não. A escada dava para um pequeno quintal, aonde a única porta de entrada para o hotel estava trancada. Então eu me debruço sobre o muro e começo a gritar por ajuda para os raros transeuntes que frequentam aquele lugar àquela hora da madrugada. Tento todas as línguas possíveis, incluindo tcheco, mas sem efeito. Depois de muito tempo, um grupo de garotas passa, e eu tento novamente pedir ajuda, mas elas acham que eu estou mexendo com elas e não me olham, apesar de acentuarem o rebolado. Um grupo de rapazes me grita: "Estás borracho, cabrón!". Finalmente, depois de uma hora, consigo convencer uma boa alma (a qual já tem o seu lugar no paraíso garantido) a entrar no hotel e resolver tudo. No dia seguinte, durante o café da manhã, todos estavam sabendo da história e rindo muito de mim. Eu fiz uma pose blasé e continuo lendo meu livro, como se tudo isto fosse algo que acontecesse todo santo dia. Moral da história: verifique a programação televisiva antes de se hospedar em um hotel.

Agora sobre o Brasil. Ah, o Brasil. Eu li em algum lugar um excelente comentário sobre o que seria o Brasil, mas não me lembro a fonte. O autor dizia que o Brasil é a terra do box de vidro e dos sucos naturais. Nada resume tão bem o nosso país como esta frase. Eu somente percebi a importância do box de vidro quando me mudei para cá, pois a cortina úmida insiste grudar no meu braço também úmido. E os sucos de caixinha daqui, meu deus... não existe diferença nenhuma entre agora e o período quando eu não sabia os nomes das frutas em tcheco: todos tem o mesmo gosto, e o mesmo preço absurdo, sendo mais fácil escolhê-los pela cor que mais combina com a sua camisa. Mas claro que há vantagens por aqui, como, por exemplo, a total ausência de Brahma. Sobre a culinária brasileira, da qual eu estava sentindo muita falta, eu tive uma brilhante idéia assim que cheguei no Brasil: churrascaria no almoço, salgados e café até não aguentar mais de tarde, comida baiana à noite e feijoada no dia seguinte. Eis então mais um motivo para eu não ter escrito durante dois meses, nem feito absolutamente nada de útil.

Sobre o Brasil, todo mundo sabe como ele está. Continua igual, e o papo também. Trânsito em São Paulo, clima árido em Brasília. Deve ter feito frio no sul e calor no norte, etc, etc. Não vou bater na mesma tecla, juro. Mas houveram algumas coisas que me chamaram atenção nestas férias. São Paulo é muito mais feia e suja do que eu me lembrava. A Avenida Paulista continua lá, sendo ainda um lugar fantástico, mas com menos encanto do que antes. Visitei também o terraço do SESC Paulista, o qual antes tinha uma vista maravilhosa da cidade, e agora não tem mais, apesar da cidade não ter mudado praticamente nada. E eu fico pensando, para que tantos prédios, meu deus? E meus olhos continuam pensando o mesmo, caro Drummond. Eu sinto que, aos poucos, vou perdendendo aquela paulistanidade que já vem no sangue, aquela paciência e masoquismo (Darwin deveria estar certo mesmo!). Eu nunca consegui viver muito tempo longe desta cidade e nunca uma cidade de médio porte me encantou antes de Praga (sim, para um paulistano Praga é de médio porte). Mas a química com São Paulo parece que sumiu, já não rolou aquilo tudo de antes. E eu que senti tanta saudade durante este ano aqui... será que isto volta? Bem, eu tenho mais um ano, no mínimo, para verificar isto. Veremos o que acontece.

Nos próximos textos eu pretendo falar sobre Viena, esta cidade que me encantou tanto, sobre a versão tcheca do Roberto Carlos, sobre natação no Vltava, ovelhas assadas e sobre o vilarejo do Velho Oeste Tcheco. Esta coluna estará imperdível e eu aconselho a todos que mudem a página inicial do seu navegador para o Praguejando [música sensacionalista ao fundo]. E eu não irei postar nenhum texto novo neste domingo, já que este saiu fora do prazo. Sejam todos bacanas e leiam este texto duas vezes caso sintam falta de mim.

E que é bom estar de volta, é. Um grande abraço a todos!



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Rafael Reinehr  - Seja bem-vindo de volta! |18-09-2009 16:57:46
avatar Sua história no Hotel realmente aconteceu? De verdade verdadeira? Ou foi um sonho que teve depois de comer um bolinho estragado durante o vôo para o Brasil?

Sobre tua sensação de estranhamento com São Paulo, acho que compreendo. Hoje, morando em Araranguá, não tenho mais aquela clara sensação de "não troco esta cidade (Porto Alegre) por nada deste mundo". Algumas características daqui ultrapassaram em muito outras de lá, e agora fazem com que aquelas não tenham o brilho que sempre tiveram.

Seja bem-vindo de volta à casa!
Gilberto Agostinho |19-09-2009 05:04:50
avatar Juro para você que a história é real, Rafael! Eu sou o cara mais azarado do mundo, e este tipo de coisa sempre acontece comigo...

Sobre estas grandes cidades, meus amigos (e eu também) sempre argumentamos que a diversidade de São Paulo compensava quaisquer outros problemas. Em que outra cidade do mundo é possível comer comida tailandesa às quatro da manhã? Mas o que normalmente passa despercebido para os paulistanos é que você praticamente NUNCA faz estas coisas, você só frequenta a mesma meia dúzia de lugares, e isto qualquer cidade te oferece.

E obrigado pelo comentário, é ótimo estar de volta sim! Grande abraço!
Milton Ribeiro |25-09-2009 10:00:23
Minha sorte é ligar raramente a TV. Mas que escada de incêndio estranha, ainda se fosse em Portugal! O pior é ainda ser apontado como idiota...

Box de vidro é mesmo o máximo.
Gilberto Agostinho |26-09-2009 06:10:35
avatar Pois é, Milton, na próxima vez eu farei minha conexão em Lisboa para poder ter mais boas histórias para esta coluna.
Me tuíta!
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