
Uma pacata cidadezinha ao norte da Alemanha às margens do rio Elba chamada Gorleben, no estado da Saxônia cercada, por quase todos os lados, de uma reserva biológica, que poderia estar incluída no catálogo de visita dos turistas e amantes da natureza, mas não é assim. Quem mais conhece Gorleben são os ativistas contra o lixo nuclear.
Desde que a usina atômica, de Kahl*, foi inaugurada, em 3 de novembro de 1960, outras 18 foram colocadas em funcionamento produzindo desde então, grande quantidade de lixo nuclear, para o qual o Estado até agora não tem dado destino certo. Há mais de 30 anos, desde 1977, as galerias das minas de sal da região se tornaram a solução encontrada pelo governo para se tornar o destino definitivo do lixo atômico.
A idéia era construir um grande depósito para o armazenamento do lixo produzido pelas usinas nucleares e, para coroar o projeto, estocar definitivamente o lixão nas minas de sal. Na procura da “mina ideal”, chegaram à conclusão de que as galerias da mina de sal de Gorleben-Rambow preenchiam, inicialmente, os critérios necessários, ou, estabelecidos a receber o lixo atômico: não ficavam perto de nenhum centro populacional e situavam-se em uma região sem grandes correntes de vento.
Só a argumentação já nos põe em alerta. Situada em região com “poucos ventos”? Será que estavam com medo de uma possível contaminação do ar? Perto de nenhum centro populacional? Havia possibilidade de contaminação radioativa em grande escala e de uma possível resistência ao projeto? Ah, Gorleben era o lugar ideal, ainda mais, por que ficava perto da fronteira com a antiga Alemanha Oriental, sem estrada que ligasse o pequeno lugarejo ao mundo, bem lá no meio do nada, ao norte da Alemanha. Mas...
República livre Wendland
Um capítulo à parte na história de Gorleben
Pois bem, a pequena cidade de Gorleben chegou às manchetes dos jornais no início da década de 1980. No meio da floresta, na chamada “perfuração 1004”, local das prospecções para construção do depósito de lixo atômico, foi organizada uma grande resistência ao projeto. Agricultores, moradores das cidades e vilas vizinhas, declararam em 4 de maio de 1980, aquele pedaço de chão, o primeiro “Die Freie Republik Wendland”, isto é: a República livre de Wendland e decretaram guerra contra o governo. A mobilização lembrava a comunidade eslava de Gorleben, que na Idade Média, resistiu à cristianização forçada, a grande diferença, estávamos finais do século XX e o levante era contra o lixo atômico.
(Foto:Torsten Schoepe, Wendland Archiv, maio de 1980)
No local, da “perfuracao 1004” foi erguida uma pequena “vila” (foto) de mais de 110 edificações dentre elas uma casa para meditação, casa da amizade com lugar para mais de 100 pessoas sentadas. As criancas não foram esquecidas e tiveram o seu espaço um parquinho, bem como uma Igreja para os que quisessem fazer suas preces. No centro da ocupação, como na velha tribo, havia uma grande e redonda arena.
Os ocupantes pensaram em tudo, organizaram até uma horta e no portal de entrada lia-se: “Atenção senhores policiais, quando vocês vierem jogar água, para reprimir nossa manifestação, por favor, não deixem de aguar o jardim uniformemente. Ah, mas, por favor, usem água sem química ou veneno. Eca! Aqui a horta é biológica”. Dos alto-falantes o aviso aos visitantes: “Quem for fazer suas necessidades, fisiológicas, na floresta, por favor, não se esqueça de enterrar sua merda”. Tudo bem ao jeito alemão, organizadíssimo e com muito humor. Mas o que estava ficando bom durou pouco.
De seus mega-fones os policiais avisavam que o tempo dado para desocupação estava se esgotando e as tropas policiais se preparavam para fechar o cerco à vila . Cenas quase surreais aconteceram: os manifestantes cantavam, enquanto eram carregados pelos policiais, havia quem tocasse acordeom de cima dos brinquedos do parquinho infantil, acompanhado de um distraído violinista e um tocador de flauta. À frente da manifestação, um professor de física, tentava usar de diplomacia, explicando aos policiais o perigo do plutônio. A empreitada para retirada dos manifestantes estendeu-se até as 8 horas da noite. Não havia resistência, nem violência por parte dos ocupantes, as pessoas eram, em muitos casos, literalmente, carregadas para fora de Wentland.
Em um dos últimos bastiões a ser desocupado, o navio gangorra, no parquinho das crianças, policiais que ousaram a empreender a escalada, até o alto, para retirar os manifestantes de lá, foram recebidos com uma taça de vinho. Foi deste jeito que em 04 de junho de 1980 deixava de existir a República Livre de Wendland. A bucólica ocupação durou apenas algumas semanas, mas fez história na luta contra o lixo atômico na Alemanha.
Do fim para o começo

(Foto: Toresten Schoepe, Wendland Archiv, 4 de setembro de 1982)
Desde da República de Wendland até os dias hoje os cidadãos não deram nem darão sossego, ao projeto do governo de criação dos depósitos de lixo atômico. Marchas, protestos, bloqueio de estradas, ações judiciais continuam acontecendo. Aos ativistas até hoje não faltou criatividade: agricultores já espalharam 40 mil litros de estrume de vaca e porco nos campos, onde estavam sendo feitas as sondagens, era uma fedentina só. Em outra ação 600 ovelhas vieram ajudar aos manifestantes fazendo barricada, bloqueando a passagem dos carros da polícia. Boas meninas! A programação é extensa de: ações teatrais, consertos, caminhadas pelos arredores, festas. A participação de pais e crianças, nos acontecimentos, até mesmo as escolas da região organizaram seu calendário de protestos e paralisaram as atividades escolares. E pela primeira vez, em fevereiro de 1990 Leste e Oeste então unidos, fazem manifestação conjunta contra Gorleben. Deste então os tratores, podem ser vistos, mais nas estradas de asfalto em protestos, que nos campos e, pode-se dizer que eles têm mais quilômetros rodados que os carros de passeio. A última “tratorada” rumo a Berlin em setembro último durou 5 dias, só na estrada!
(Foto: Torsten Schoepe, Wendland Archiv,4 de setembro de 1982)
Embrulhado para presente
A comunidade e as vilas vizinhas dividiram suas opiniões sobre o tema. Muitos agricultores venderam suas terras para o governo implantar o projeto, alguns o fizeram sob pressão ou medo de perder o que já haviam investido. Algumas localidades mais próximas a Gorleben tiraram proveito, com a implantação do lixão, pois a arrecadação de impostos aumentou e novos postos de trabalho foram gerados pelo “entreposto”. E apesar de todas as ações de protestos e ações jurídicas, mesmo com o parecer contrário de comissões independentes em suas avaliações técnicas que concluíram haver risco de corrosão dos recipientes de lixo que representa risco de contaminação do lençol freático, o projeto foi levado à frente pelo governo.
Atualmente Gorleben é um entreposto de lixo, de fraca e média radiação com capacidade para estocar 3.800 toneladas de lixo atômico de alta radioatividade, proveniente das fábricas de plutônio de La Hague da França e da Inglaterra. A dois quilômetros de Gorleben foi construído um local para embalar o lixo de alta periculosidade, ou seja, de alta radioatividade. Depois do procedimento de embalagem são necessários cerca de 20 a 30 anos para que o lixo radioativo “esfrie” de 400 para 200 graus, e, somente depois ele poderá ser estocado em depósitos sob a terra, isto é, nas galerias da mina. Socorro! 20, 30 anos, só para esfriar? Que “presente” os governantes de hoje estão deixando para as futuras gerações!
100 mil anos. A meia vida para a vida inteira
Ao contrário daquilo que os militantes da “Die Freie Republik Wendland” solicitavam aos visitantes, que “para se livrar de suas merdas a enterrassem na floresta”, o mesmo não pode acontecer com o lixo nuclear. Não basta depositar o lixo nas minas de sal, pois ele continua “ativo” por muitos mil anos. No jargão científico, o chamado “meia vida” de um elemento radioativo, significa que ele demora um tempo determinado, para se tornar inofensivo aos seres humanos, animais, plantas. Por exemplo, o lixo produzido a partir do uso do plutônio demora 25 mil anos para se tornar inofensivo à natureza. Uma “meia vida” de 25 mil anos! Isto mesmo, vocês não leram errado: 25.000 anos! Dependendo do grau de radioatividade o lixo, ainda emitirá radiação por até 100 mil anos. Qual político, ou mesmo cientista, em sã consciência, pode garantir que esse lixo estará seguro e isolado em um depósito por... 25 mil anos, 100 mil anos?
Até hoje, no mundo todo não existe nenhum depósito final para lixo radioativo de alta intensidade. Então: Quo Vadis? Para onde?
Anualmente correm nos trilhos vagões do chamado “Castor” (Cask for Storage and Transport Of Radioativ Material” ou recipiente para transporte de material radioativo) com o lixo radioativo em direção a Gorleben. A cada viagem do CASTOR o governo arma um circo com um grande aparato militar. Não é pra menos. Manifestantes se acorrentam e alguns se deixam betonar junto aos trilhos. Houve caso dos manifestantes ficarem presos por 17 horas e impedindo o trem de continuar a viagem. São cenas dramáticas que foram vistas na teve.
Mas as cenas não chegam aos pés do que poderia acontecer num possível acidente nuclear. Um único vagão do transporte pode conter radioatividade de até 40 vezes a da bomba lançada na cidade de Hiroshima na Segunda Guerra Mundial. Para os homens do Clube de Roma uma mão cheia de plutônio é o suficiente para exterminar toda a humanidade.
A energia Alpha, emitida pelo plutônio, nos remonta a um passado, no qual a terra recebia o homo erectus, que sobreviveu por um milhão de anos. E agora, somos exatamente nós, os sapiens sapiens , ironicamente o “sábio dos sábios”, que colocamos em risco todos os seres vivos do nosso planeta. O trinium se comporta como água e é absorvido pelo organismo humano. O iodo radioativo assim chega as nossas células da glândula hipófise, aquela que produz importantes hormônios, reguladores de várias funções do organismo, como, por exemplo, o do crescimento. A radiação não é visível aos olhos nem percebida pelos nossos narizes. Assim perigosas substâncias radioativas ao serem inaladas ou ingeridas, através de alimentos contaminados e da água, além de provocar câncer, podem afetar a reprodução humana e mesmo provocar abortos. Lembremos do que aconteceu na antiga URSS, após o acidente nuclear de Chernobil. Após alguns anos se detectou o surgimento, em grande número de crianças, de vários tipos de tumores malignos.
A Alemanha no ano de 1958 lançou a proposta, para nós hoje estapafúrdia, de depositar o lixo atômico na Antártida. A NASA, que voando acima das nuvens da racionalidade, sugeriu mandar o lixo atômico em seus foguetes para... o... espaço, é claro. Que os deuses nos protejam de propostas como estas. Nem é bom lembrar que até o final de 1983 o lixo atômico, líquido, de baixa radioatividade, era simplesmente despejado no mar...
A empresa GNS Geselllschaft für Nuklear-Service mbH, fundada em 1977, que executa o trabalho de tratamento, estocagem do lixo atômico e administra outros, chamados, aqui, de “entrepostos para o lixo nuclear”, já gastou 1,3 bilhões de euros, no desenvolvimento do projeto. Na tentativa de vender o peixe podre, a empresa apresenta dados do trabalho que realiza e nos quais diz que Gorleben é local viável economicamente, oferece toda segurança e está dentro das normas e padrões exigidos para receber o lixo atômico. Mas ainda assim, até o presente momento o lixo atômico ainda não foi parar dentro das galerias de sal de Gorleben. As discussões sobre o tema são calorosas e esquentam qualquer debate, porém não se chega a nenhuma conclusão.
Há de se destacar que para investir somas exorbitantes, como as acima citadas, na estocagem do lixo atômico é preciso ter além de recursos financeiros, tecnologia e influência no ramos de energia. E a GNS tem como acionistas poderosos grupos que têm enormes lucros. Entre as empresas do grupo estão a E.ON Kernkraft com 48% de participação acionária, RWE Power com 28%, Südwestdeutsche Nuklear-Entsorgungs-Gesellschaft com 18,5% e Vattenfall Europe com 5%.
A salgada solução Asse
Um exemplo real hoje do que pode acontecer num futuro não muito longinquo é o depósito de lixo atômico, a mina de sal de Asse. As minas estocam 126 mil barris de lixo de baixa e média radioatividade. Dissemos 126 milll barris! As paredes do depósito apresentam rachaduras, além do que, a mina sofre com inundações e no caso de vazamento de material radioativo dos barris, poderá contaminar o lençol freático. Diariamente são bombeados para fora da mina 12 mil litros de água infiltrada atravez de suas paredes. Algumas galerias apresentam sinais que podem desabar, documentadas em foto e vídeo. Caso o pior aconteça o lixo atômico lá depositado será soterrado.
O governo apresentou três propostas com a intenção de resolver o problema: A primeira delas seria fechar os depósitos com sal betonado, concretado; a segunda transportar o lixo radioativo para as partes mais profundas da mina; e, a terceira a retirada do lixo radioativo da mina, mas não se fala para onde ele será transportado. Os cidadãos, os maiores interessados na causa, não são nem consultados sobre o problema e muito menos é informado qual o custo de uma operação dessas. E de onde saíram os recursos para tamanha operação? É óbvio que o dinheiro sairá do bolso dos contribuintes.
“Uma história que ainda não é história”
Assim definem aqueles que querem preservar a história de Gorleben para as próximas gerações. Há mais de 30 anos iniciou-se a resistência da população. A história de Gorleben, que coleciona um vasto arquivo de fotos, filmes, cartazes, panfletos, desenhos, protocolos e cartas da grande ação de cidadania, ainda está sendo escrita. E quem pensa que a história acabou, que a coragem de continuar lutando, arrefeceu, pergunte aos ativistas. Eles seguem na luta e assim se definem: “Nós fazemos história! O conflito Gorleben ainda não está maduro para ir parar no museu! Nós estamos no meio da história!”
Em 2001 foi fundado em o “Gorleben Archiv” que tem como o objetivo preservar informações para futuras gerações. Nele há uma lista de documentos, ações jurídicas, que são suficientes para encher uma enciclopédia Barsa de muitos volumes. Muitos jovens, já da segunda ou terceira geração, visitam e consultam os documentos para se informar onde tudo começou. Muitos deles fizeram parte da história do movimento bem cedo, ainda bebes, no colo de seus pais.
Bolsa em alta
No período legislativo passado, a coalizão composta pelos partidos CDU/CSU e SPD, Partido Social Democrata propuseram o fechamento das centrais nucleares, mas novos ventos sopraram sobre a Alemanha em 2009. Nas eleições de setembro último o CDU/CSU, União Democrata Cristã preferiram fazer coalizão com os liberais do FDP, Partido da Livre Democracia e avisaram que pretendem prolongar o uso da energia atômica. Quando saíram os resultados finais das eleições e proclamado a vitória da coalizao formada pela Democracia Crista e os Liberais, as bolsas de valores reagiram, as cotações dos títulos das empresas produtoras de energia nuclear tiveram grande valorização no mercado de negócios. E até agora não se ouviu uma palavra sobre o destino que se pretende dar ao lixo radioativo... Uma parte da humanidade ainda reage passiva como se a energia elétrica saísse da... tomada no canto da sala, nada mais.
Notas:
* A usina de Kahl foi desativada em 1985.
Sobre as fotos:
Nossos agradecimentos aos fotógrafos que gentilmente cederam as fotos para ilustrar este artigo.
Dankeschon :
Torsten Schoepen
Robert Spoenemann
Fonte
Intitut für Friedenspädagogik Tübingen e.V
Deutschlandradio Kultur
Eckerhard Soo: Der letze Tag der “Republik Freies Wendland”
Das Deutsche Historische Museum zur Anti-Atomkraft-Bewegung
Endlagerung in Deustschland - Das Projekt Gorleben
Greenpeace - Das Zwischenlager Gorleben
- Crhronologie der Gorlebener Atomnlagen und des Widerstandes (1977-1977)
- Lügengeschichten: Lilo Wollny
Nabu – Naturschutzbund Deutschland
- Atommüll in durchgerosteten Fässern
- Atomkonzerne für Asse zur Kasse bitten
www.castor.de
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