
Marx está de novo
"O constante revolucionar da produção, a ininterrupta perturbação de todas as relações sociais, a interminável incerteza e agitação distinguem a época da burguesia de todas as épocas anteriores. Todas as relações fixas, imobilizadas, com sua aura de idéias e opiniões veneráveis, são descartadas; todas as novas relações, recém-formadas, se tornam obsoletas antes que se ossifiquem. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentimentos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens.”*
Nunca na Alemanha se comprou e se leu tanto “O Capital” como neste ano que finda. Nas livrarias não é possível encontrar mais o livro, somente “por pedido”, devido a grande procura. Eu tentei comprar o meu livro como presente de Natal e a resposta da vendedora: “Em tempos de crise, o Capital é bem procurado”. E lá vou eu esperar uma semana pelo meu exemplar.
Nenhuma outra obra analisou tão profundamente com tamanha precisão a economia de mercado, produção e circulação de mercadorias como O Capital de Karl Marx (1818-1883). Mais e mais gente quer saber como funciona o mecanismo do capitalismo. Na verdade o livro O Capital não vai dar respostas prontas para os nossos problemas atuais e sim esclarecer os pontos de ligação e os fatos. Para o ano que entra os Estudantes Organizados de Esquerda, SDS Studiendenverband Die Linke estão organizando, em várias universidades, “leituras” de O Capital. Participarão dos debates docentes de universidades, críticos do capitalismo, doutores de várias áreas das ciências econômica e social. Trinta e um Círculos de Leitura estão programados até agora pra o ano de 2009 de Rostock até Konstanz, norte a sul e de Desdren até Saabrücken, leste a oeste da Alemanha.
Na antiga Alemanha Oriental nos anos 60 e 70 o livro “O Capital” era leitura obrigatória e habitava as estantes dos estudantes de esquerda. Depois da queda do muro reinou silêncio sobre a obra e o velho Karl Marx foi considerado morto. Em razão da crise financeira mundial sua obra máxima, O Capital, renasce. O interesse surgiu depois de deflagrada a crise financeira. Mas não só os estudantes universitários estão à procura das causas da profunda divisão da sociedade em tempos de capitalismo global e o seu permanente estado de crise.
O profeta da globalização
Para Marx o fenômeno da crise financeira no século 19 não era novidade. Em 1850 ele iniciou seus estudos em que abordava os temas dinheiro, crédito e crises. Marx vivenciou a primeira crise mundial da economia em 1857/58, escrevendo “Fundamentos da crítica da economia política” em que previa uma série de crises de bancos, bolsas de valores e dinheiro na Inglaterra e França. Ele foi ridicularizado por seu próprio camarada Wilhelm Wolff, um dos fundadores da União Comunista, na época correspondente do Jornal “Deustche-Brüsseler”. Pois em agosto de 1857 aconteceu o “crash”
Aqui estão prognosticando que a crise que vem por aí é a pior crise desde os anos 30. Pois a teoria do velho Marx vem se confirmar: crises cíclicas e a espiral nos leva para cima e para baixo. Recessão, depressão e expansão. No mundo globalizado não há escapatória: todos estão dentro.
Eu especulei, tu especulaste, ele especulou...
Nas semanas em que as bolsas despencavam e a crise se alastrava mundo afora, aqui na Alemanha lia-se e ouvia-se na imprensa o tamanho do buraco financeiro aumentar a cada dia. O escândalo do Banco da Bavária, por exemplo, que especulou e perdeu. O banco tinha em seu “conselho” Erwin Huber, o então ministro das finanças da Bavária do CSU, extrema direita cristã, cujo papel dentro do banco era ser ”o fiscal” da instituição e teve que pedir demissão da política por ter “fracassado” na sua função. Em 9 de outubro era anunciado um buraco no Bayern LB de 3,6 bilhões de euros em seus caixas e que aumentou no dia 21 do mesmo mês para 6,4 bilhões e no final ninguém sabia e sabe quão fundo era e é o buraco.
Outros bancos estaduais também foram vítimas da incompetência, de seus gerentes, dos seus “globals players”. Os bancos estaduais especularam com os impostos dos cidadãos e perderam. A república alemã jogou a bóia de salvação: 30 bilhões provindos de um “Fundo de garantia para estabilização do mercado”. As somas são tão altas, que fica difícil, para nós pobres mortais, acompanhar. Eu disse bilhões para os bancos dos respectivos Estados: 10 bi para a Bavária, 5 bi para Baden Wütemberg, Renânia do Norte: 5 bi e para Sachsen 2,8 bilhões. Ah, em Hamburg as contas ainda estavam sendo feitas. Os dados são da revista Spiegel de 08/12/2008.
Para se ter uma pequena noção da crise, o Estado da Bavária vai ter que se endividar até o pescoço com o empréstimo de 10 bi para o seu banco estadual, isso num orçamento anual de 40 bilhões. A cada dia a imprensa publica uma soma maior e ninguém sabe até hoje onde vai parar a crise e onde vai dar o fundo do poço. Tanto aí como aqui os políticos utilizaram os seus bancos estaduais para os seus interesses políticos. Quem vai pagar a conta? O saneamento das instituições financeiras através de fusões, segundo especialistas, poderá custar dois terços dos postos de trabalho a médio e em longo prazo, que hoje são ainda 60 mil.
A casa de onde Marx nasceu, em Trier, vai festejar este próximo ano, com certeza, o recorde de visitantes. De crise não se fala nas livrarias que já venderam um número considerável de exemplares do livro “O Capital”. Se os prognósticos da vendedora da livraria em Düren, onde encomendei o meu exemplar “Das Kapital” estiverem certos, de que o velho Karl Marx “vende bem em tempos de crise”, no próximo ano a editora Karl-Dietz Verlag vai continuar a faturar.
*Karl Marx
Fonte:
Die Zeit
Das Kapital lesen, Dem Wert auf der Spur
Der Spiegel
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