Alice não mora no país das maravilhas

Mundo - Este País, Alemanha

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Tudo que era dito em segredo agora é discutido abertamente da frigidez passando pelo prazer até ao orgasmo... Alice...

 

 

 

 

Alice Schwarzer, jornalista, escritora, uma ícone do feminismo na Alemanha. Uma tenaz lutadora pelos direitos e igualdade das mulheres, contra a pornografia e a condições indignas que vivem as mulheres, contra exposição das mulheres como objeto sexual, uma velha amiga de Simone de Beaouvoir...

 

Alice Sophie Schwarzer nasceu em Wuppertal, em 1942, tempos difíceis, tempos em que vigoravam as leis do Nacional Socialismo e os filhos nascidos “fora do casamento”, como ela, eram entregues à responsabilidade de outros para serem criados. No seu caso foi entregue ao avô, que trocava suas fraldas e servia as mamadeiras. “Foi a minha sorte”, afirma Alice. “O meu avô não me educou como menina ou menino, mas me deixou crescer como um ser humano.”

 

Quando bombas cairam sobre a cidade a família foi obrigada a se mudar para uma fazenda no estado de Hessen. Alice cresceu sem a presença do pai, como era normal em muitas famílias, que perderam os seus pais, irmãos, maridos para a guerra.

 

Nos anos 50 viveu uma vida normal como a de qualquer jovem de sua época, freqüentando as aulas e escola de dança. Quando completou sua maioridade, aos 18 anos, saiu de casa e foi trabalhar como secretária em diferentes escritórios em Düsseldorf e em Munique.

 

No ano de 1961 resolveu partir para Paris onde sonhava fazer curso de línguas e jornalismo. A cidade de Paris foi para Alice símbolo de “liberdade” e láconheceu o movimento feminino e os estudandes em revolta.

 

De volta a Alemanha iniciou seu curso na escola de jornalismo em 1966 passou a escrever como voluntária no “Düsseldorfer Nachrichten”. Em 1969, em uma curta passagem pela revista “Moderne Frau” agora como repórter do jornal satírico de orientação de esquerda “Pardons” em Frankfurt am Main.

Retorno a Paris

Reinava na "cidade das luzes" uma atmosfera de rebeldia, os estudantes foram para as ruas protestar. Era maio do ano de 1968. Alice tem entao contato com o movimento feminista e passa a escrever, como jornalista independente, no “Mouvement de liberation des Femmes” ao mesmo tempo que estudava sociologia e filosofia na Pariser Universitäat Vincenne. Envolvida com todas estas atividades claro que não poderia deixar de conhecer pessoalmente e ficar amiga de Simone de Beaouvoir, que tornou sua mentora na época.

 

 

A minha barriga me pertence

 

 

Na onda do movimento feminista francês 374 mulheres na Alemanha dentre elas Romy Schneider, Sabine Sinjen, Santa Berger, Margarethe von Trotta declaram na capa da revista Stern: “Wir haben abgetrieben!” Nós abortamos! Esta delcaração provocou um verdadeiro escândalo na república. Elas exigiam o direito ao abordo e ao reconhecimento da igualdade e o poder de decidire sobre seu próprio corpo. Este foi o estopim de um grande movimento de massa pela legalização do aborto que unificou os diversos grupos fenimistas em toda a Alemanha. A mulherada foi para para as ruas. A discussão era feita em toda parte, nas fábricas, escritórios, universidades e indo além não se restringuindo somente ao tema do aborto, mas também prazer, sexualidade, violência.

Alice também iniciou campanha em de marco de 1974 mobilizando mulheres de norte a sul da Alemanha para protestar contra o parágrafo §218. A palavra de ordem era: “A minha barriga me pertence.” O parágro 218 punia médicos e mulheres que interrompiam gravidez indesejada com até 3 anos de prisão ou multa.

 

Em países em que o aborto não era legalizado, mulheres sem alternativas para a interrupção de uma gravidez indesejada e em condições higiênicas seguras, como as que existem hoje na Alemanha, punham em risco suas vidas, ao abortarem clandestinamente.

Em 29 de junho de 1995, depois de uma longa batalha, finalmente a mudança do parágrafo 218 e terminando definitivamente com a descriminalização do aborto.

Juntamente com outras feministas na década de 70, Alice fez campanha contra a lei que impedia as mulheres de trabalharem sem a autorização do marido. Até 1977 na Alemanha, para as mulheres casadas poderem trabalharem precisavam de ter uma... autorização por escrito do marido. Elas tinham que comprovar que o trabalho “não as impediam de executar as obrigações familiares”. Ra! E n`Este Pais-Alemanha!

 

Emma

 

Em 1976 era fundada a revista Emma (em alemão) de emancipação, por Alice que tem seu escritório central em Colonia. É uma típica revista feminista dos velhos tempos um forum de debates. Os temas por ela tratados, atualíssimos: direitos das mulheres, violência e abuso sexual, castração feminina, contra os estereótipos, exigindo respeito às mulheres que executam serviços não qualificados, pelos direitos e igualdades das mulheres na qualificação profissional, igualdade nas posições de chefia e independência financeira. “Direitos iguais abre a possibilidade de ser independente financeiramente”. “Mulher ainda hoje é objeto. “Parecer jovem a vida toda, ser atrativa, parecer magra causa doenças, como a bulimia”. Também abre luta num fronte sensível: contra o uso da burca, lenço que as mulheres praticantes da religião islâmica usam na cabeça, cobrindo todo rosto, só deixando os olhos a mostra.

Desde os acontecimentos do 11 de setembro, adverte ela sobre a falsa tolerância em relação a influência do islamisno e a opressão das mulheres. Ela exercita uma rara solidariedade com as mulheres do mundo eslâmico. Para ela a burca é entendido como a perda da identidade como seres livres e iguais . Critica o processo de eslamização na Europa e a perda das liberdades e particularmente dos direitos das mulheres. Aqui se prentende assegurar que aqueles que exercem violência contra as mulheres sejam severamente punidos pelas leis. Como nos casos de “crime em nome da honra”, quando uma mulher quer se separar do marido, por exemplo, ou uma jovem deseja se casar com outro homem que não o desejado pelos pais. Há inúmeros casos desses na Alemanha, entre os praticantes do Islamismo. Na semana passada um alemao-afegano matou sua irmã à facadas pelo fato dela “não estar seguindo as leis de sua religião e desonrando sua família”.

 

PorNO

 

Em 1987 a revista Emma lancou a campanha PorNO, No do inglês não, contra fotos de mulheres representadas como objeto sexual em situação de humilhação, degracação e violência. Para Alice a mulher exposta em cenas de pornografia e violência ferem sua própria dignidade.

A campanha contra a violência na mídia surgiu quando foi publicada uma fotografia de Helmut Newton na capa da revista Stern da cantora jamaicana Grace Jones, acorrentada. Alice postula: sadomasoquismo está ligado ao facismo.

 

A pequena diferença e suas grandes conseqüências

 

Alice provoca. Em 1975 publica o livro “Der Kleine Unterschied und seine großen Folgen“, A pequena diferença e suas grandes conseqüencias“ provocando um grande furor. No livro discute o significado do amor e sexualidade na vida das mulheres. Tudo que sempre foi dito em segredo agora era exposto em palavras: prazer, frigidez e orgasmo. E a discussao feita pelas mulheres e com mulheres foi parar nos centros culturais, nas fábricas, nas universidades, nas casas.

 

O que Alice acha do dia internacional da mulher? Ela acha que é um ritual vazio, um tipo de “Dia das mães socialista” em que as mulheres recebem “cravos vermelhos” que vem da tradição de países socialistas e não do movimento de mulheres.

Pela sua perseverença na luta pelos direitos das mulheres recebeu diversas condecorações como em 2005 “Bunderverdienstkreuz Erster Klasse”, a mais alta condecoração da Alemanha, além de prêmio Jornalista do ano de 2005, pela revista “Medium-Magazin”.

 

Alice que sempre provocou é reservada e não faz de sua vida privada manchete de jornal. Até hoje nunca fez qualquer declaração pública sobre a sua preferência sexual na condição de lésbica. Aos 65 e com mais de 25 livros publicados quer deixar a direção da revista Emma que fundou, não para se aposentar, mas para continuar a luta e dedicar-se a escrever livros.

 

Alice que não nasceu no pais das maravilhas cre que ha ainda muito trabalho a ser feito pelos direitos das mulheres. Ela continua ativa. A luta continua, Liebe* Alice. A luta continua.

 

* Liebe: querida

Links: Alice Schwarzer website de Alice Schwarzer em alemão.

Textos pesquisados:

Frankfurt Allgemeine: Alice Schwarzer: “Die Antwort”,

Tagesspiegel: „Der Chef hat Geburstag“,

Alice Schwarzer (1996, Tonbandprotokoll),

Alice Schwarzer/Biographie,

Emma,

Politeia. Internetpräsentation zur deustchen Geschichte nach 1945 aus Frauensicht,

Spiegel: Ein Macho im Rock, 12/1999,

FrauenMediaTurm-Die Chronik der neuen Frauenbewegung.

 

 

Foto: Capa da Revista Stern.

Slogan: De Emma.

 

 



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larissa bueno ambrosini |13-06-2008 08:27:56
avatar aqui, semana passada um casamento foi anualado, pois a mulher não era virgem. um casal muçulmano.

foi uma
b a r u l h e i r a...

gostei do artigo. e da alice.
faltam alices nesse mundo.

um abraço!
MARCIA |16-06-2008 09:18:30
INCRIVEL COMO TANTAS MULHERES NO PASSADO, COM TANTA REPRESSÃO, LUTARAM PELA NOSSA INDEPEDENCIA, NOSSO ESPAÇO E NOS DIAS DE HOJE MUITAS MULHERES, IGNORAM ESTA CONQUISTA E VIVEM PARA APANHAR E SERVIR AOS MARIDOS. TRISTE NÉ!ABRAÇOS
Solange Ayres  - Mil Alices |18-06-2008 01:28:54
avatar Cara Larissa. Como voce ve Alice tem razao. Se a justica francesa esta dando o braco a torcer no caso, anulando casamento porque a esposa nao era virgem, é porque ha uma falsa tolerancia em relacao ao islamismo na Europa. Estamos dando marcha ré depois de tantos anos de lutas feministas. Aquí muitas mulheres que foram a público falar sobre a situacao das mulheres no mundo islamico estao ameacadas de morte. Uma só uma é pouco, precisamos de mil Alices. Ha muito trabalho a fazer. Obrigado pela visita e os comentários. Um abraco. Solange
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