Ciência e Humanidades - Demografia

O fim do governo George Bush é um alívio e representa uma oportunidade. Até agora os discursos e as ações de Barack Obama tem alimentado a esperança de um mundo (pelo menos um pouco) melhor.
Barack Obama representa uma mudança na galeria dos presidentes americanos, por um lado, simplesmente por ser negro, isto é, por ter levado ao posto máximo dos EUA um sonho embutido nas reinvindicações do movimento pelos direitos civis. As crianças negras americanas sabem agora que tudo é possível em termos de futuro profissional. As crianças brancas olham suas colegas de outras etnias sem o ar superior da exclusividade, mas como parceiras na construção de um país que é cada vez mais multiracial. Crianças de todas as cores provavelmente devem visitar as admiradas Malia e Sasha na Casa Branca. As mulheres observam o brilho de Michelle Obama. Uma família negra na Casa Branca é por si só uma grande mudança em relação ao passado escravista e segregacionista dos EUA. Mas, existe um outro lado que representa um mérito de Barack Obama, que é a sua capacidade de gerar mobilização e consenso.
Obama não se contentou com uma vitória espetacular nas eleições presidenciais, foi atrás de maior apoio entre os partidos e na sociedade, visando unir forças para enfrentar os desafios da pior crise econômicas das últimas décadas. Organizou uma equipe de governo com pessoas competentes e experimentadas, ao mesmo tempo que diversas em termos de etnia, gênero e filiação política. Embora não tendo uma composição idealmente proporcional, o gabinete Obama é o que mais representa a sociedade americana em termos sociodemográficos e culturais. Este fato ajuda a mobilização da sociedade que se sente parte do governo. Obama acredita que a união faz a força e o sonho que se sonha junto vira realidade.
Mas a maior habilidade do candidato e agora presidente Obama está na sua capacidade de construir consensos. Numa sociedade democrática é comum e saudável que haja divergencias de opiniões e diferentes propostas de ações. O contraditório é essencial. Mas idéias discordantes podem levar a divisões inconciliáveis que podem gerar conflitos destrutivos ou a paralisação de uma nação. Saber lidar com a discordância é uma arte que implica saber distinguir tolerância de complascência. Mas, principalmente, a ciência do consenso envolve um processo decisório que busca encontrar uma proposta aceitável, de forma que todas as opiniões dos estratos sociais possam se sentir contempladas e fazer com que as pessoas possam se mobilizar para alcançar os objetivos consensuados.
No plano interno Obama busca mobilizar as pessoas para melhorar o sistema educacional e de saúde, em um quadro de crise econômica e crescimento do desemprego. Muitas são as alternativas de ação. Mas manter o otimismo e a confiança nos valores básicos dos fundadores do país é um primeiro passo. Reverter o quadro de concentração de renda e dar igualdade de oportunidade para todos é uma tarefa inadiável. Mudar a forma de se fazer política em Washington e incorporar a população na tarefa de reconstruir os EUA é um desafio que desafiará toda a habilidade de Obama nos próximos meses.
No plano internacional Obama já rompeu, em seu discurso de posse, com o unilateralismo e a doutrina Bush. Mas existe um longo caminho para favorecer o multilateralismo e o respeito pelas instituições internacionais. Combater a pobreza, defender o meio ambiente, dar um espaco maior para o G-20 e para as instituições multilaterais. No plano internacional é preciso respeitar as complexidades culturais e a alteridade.
Por certo, Obama não resolverá todos os problemas e desafios da atualidade. Mas, sem dúvida, representará um grande avanço em relação aos 8 anos da Era Bush. O que se espera é que seu governo avance – com mobilização e consenso - rumo à paz e a cooperação entre as pessoas e os povos do mundo, com melhoria do bem-estar da humanidade, busca da felicidade e respeito ao meio ambiente.
Pode ser que tudo isto não passe de uma ilusão e de um sonho. Mas é melhor sonhar com a retórica de Obama do que viver no pesadelo das políticas de George Bush e dos fundamentalistas e conservadores americanos.
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