Ciência e Humanidades - Demografia

Confesso que tive grande esperança no governo Obama e grande simpatia pela retórica sofisticada e progressista de um presidente que não fazia parte da elite do país e foi eleito quando tinha menos de 50 anos de idade, inspirou a juventude e se tornou Prêmio Nobel da Paz.
Após os anos desastrosos do governo George Bush (filho), tive realmente esperança de que o novo presidente seria capaz de redirecionar a economia dos Estados Unidos e colocar o país em novo rumo: fechando a prisão de Guantânamo, colocando fim nas guerras do Afeganistão e do Iraque, reduzindo os gastos militares, trabalhando para consolidar a paz no mundo, tomando medidas para mitigar os efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas, aumentando os impostos dos ricos e das atividades econômicas intensivas no uso de energia fóssil, regulamentando e controlando o setor financeiro, fortalecendo o Estado laico e o capital social, redirecionando os investimentos para as energias renováveis e para a economia verde e inclusiva, etc.
É certo que o presidente Barack Obama recebeu uma herança maldita de Bush filho, pois a economia estava em recessão, a crise financeira se alastrando, o desemprego aumentando, os déficits gêmeos (fiscal e comercial) bastante altos e uma dívida pública enorme. Nesta situação, o governo precisa agir para evitar o pior e impedir que as parcelas mais vulneráveis da população sejam duramente penalizadas.
Contudo, são nestas horas que se pode implementar medidas inovadoras e corrigir a trajetória equivocada anterior. Porém, o presidente Barack Obama não apresentou nada de novo e promoveu um bilhonário pacote de estímulo para salvar os grandes bancos e as grandes empresas, mas sem mudar no essencial as regras do jogo. Pior, ele manteve funcionando a prisão de Guantânamo, elevou os gastos militares no Afeganistão e no Iraque e ainda iniciou a intervenção na Líbia. Desta forma, os gastos com defesa (e ataque) dos EUA chegaram a 700 bilhões de dólares, subindo de 3% do PIB na época do governo Clinton para 4,7% do PIB em 2011. Os gastos militares do governo Obama estão maiores do que no governo Bush filho.
bama utilizou o seu capital político inicial para tentar universalizar o sistema de saúde. Porém as despesas com os programas Medicare e Medicaid já estão muito altas e tendem a sair do controle com o processo de envelhecimento populacional. Seria preciso fazer uma reforma do sistema para dar sustentabilidade fiscal e evitar a perda de controle das despesas nesta área. Desta forma, a oposição do partido Republicano foi muito forte e as poucos conquistas obtidas na reforma da saúde estão ameaçadas.
Na área ambiental era preciso aumentar os impostos sobre os combustíveis fósseis e financiar a mudança e limpeza da matriz energética estadunidense. Mas Obama não conseguiu vencer a resistência dos céticos do clima e os EUA continuam importanto e consumindo muito petróleo, assim como emitindo toneladas de gases de efeito estufa.
O aumento das despesas e os estímulos fiscais fizeram o déficit público ficar em torno de 1,5 trilhão de dólares nos três anos do governo Obama. A dívida pública que tinha crescido 4,4 trilhões de dólares nos 8 anos do governo Bush filho, cresceu 5 trilhões em apenas 3 anos. Com isto a dívida bateu no teto e a Casa Branca ficou refém dos Republicanos que controlam a Câmara de Deputados.
Para piorar o quadro, na semana em que o presidente comemorou os seus 50 anos de idade, as bolsas americanas tiveram uma grande baixa e a agência de classificação de risco Standard & Poor's retirou a nota máxima de crédito "AAA". Pela primeira vez, desde 1917, os títulos americanos não são mais considerados "risco zero". Outros rebaixamentos podem vir nos próximos anos.
Com tudo isto, a economia americana tem alta probabilidade de cair novamente em recessão, tornando provável o chamado “duplo mergulho”. O desemprego que já está na casa de 9,1% pode ultrapassar os dois dígitos. Nesta situação, as receitas do governo tendem a cair, o que deve agravar ainda mais os déficits fiscais e o financiamento da dívida.
Não é de se estranhar, portanto, que a popularidade de Barack Obama esteje em seu nível mais baixo, com a média dos números das pesquisas do RealClearPolitics apontando para 44% de aprovação e 50% de reprovação. As chances de reeleição de Obama são cada vez menores e as perspectivas para o resto do mandato não são boas.
Barack Obama se elegeu prometendo esperança, conciliação e mudança. Mas não teve pulso para para tomar as decisões necessárias, governou de forma frouxa e pode entrar para a história como o presidente do desemprego, do fim do triplo AAA no crédito e da queda do poder aquisitivo.
De fato, o declínio do poderio americano parece inevitável, com ou sem Obama. E se já está ruim como está, pior pode ficar com uma possível ascensão de algum Republicano nacionalista, fundamentalista religoso xenófobo e conservador na política, na moral e nos costumes. Ou seja, o pior pode ainda estar por vir.
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