Ciência e Humanidades - Antitextos
O deputado federal Emiliano José (do PT baiano), por quem nutro um respeito genuíno devido a sua trajetória, respondeu a uma provocação minha postada no facebook no dia da aprovação do novo Código Florestal devastador.
O deputado diz (fazendo um resumo de sua resposta que pode ser lida na imagem acima) que a bancada do PT lutou para melhorar o Código, mas decidiu aprová-lo para depois lutar contra a desastrosa emenda 164. Depois justifica o seu voto a favor do novo Código dizendo que seguiu a orientação do partido e do governo, mencionando que “ninguém era simpático ao relatório” e concluindo: “infelizmente, como a sociedade civil não conseguiu se mobilizar, não conseguiu colocar milhares de pessoas para pressionar a maioria a favor dos interesses ruralistas, (…) ficamos numa impressionante minoria na Casa”.
Caro deputado, passarei por alto por uma ou duas contradições na sua resposta das quais não quero me aproveitar, para ater-me somente ao essencial, que não foi abordado por você: a sua resposta revela duas importantes questões sobre o atual estado viciado do nosso sistema político, no qual você é só um reflexo.
Primeira questão: você diz que “ninguém era simpático ao Código” e que o PT lutou para melhorá-lo, mesmo assim a maior parte da bancada, inclusive você, votou a favor do Código como foi proposto, para seguir a orientação do governo e do partido. Parece, assim, que os partidos políticos não são mais capazes de alinhar-se a partir de idéias, mas sim a partir de acordos transitórios cujos objetivos extrapolam a esfera do interesse público.
O PT, com a contribuição do seu voto, aprovou um Código Florestal que continha uma emenda desastrosa, como você mesmo disse, proposta, entre outros, pelo PMDB, partido da base aliada do governo cuja orientação você seguiu.
Você defende a aprovação do desastre em nome da obediência à orientação partidária e governista? E a orientação do governo e do partido tende á aprovação do que você considera desastroso?
Segunda questão: você diz que a sociedade civil não foi capaz de se mobilizar para pressionar o Congresso – argumento que é muito questionável, porque mobilizações da sociedade houve muitas e diversificadas, em várias frentes (o que uma rápida pesquisa online pode comprovar). Talvez você retruque que tais mobilizações não ganharam força suficiente para dissuadir deputados de votarem no desastre, mas cabe analisar a outra face da moeda: será que a sociedade não se mobilizou? Ou será que a nossa democracia é surda?
Atirar à sociedade a responsabilidade sobre as escolhas e diretrizes desastrosas defendidas pelos seus representantes parlamentares eleitos é cômodo e, também, acaba por escarnecer de todo o sistema da democracia representativa. Ou devemos crer que todo eleitor vota às cegas nos seus representantes e depois têm que se mobilizar aos milhares para evitar que esses mesmos representantes aprovem o desastre?
É evidente que nós eleitores temos um mal hábito: o de pensar que votar é abdicar de nossa responsabilidade e transferi-la para os nossos representantes políticos. Mas mesmo isso não justifica que aqueles que estão nos representando aprovem no Congresso o desastre assumido simplesmente porque nós, eleitores, abdicamos erroneamente de nossa responsabilidade.
Fica claro então a premente necessidade de uma reforma política que deve começar pela consciência dos parlamentares comprometidos com os interesses majoritários da sociedade que, certamente, não incluem emendas desastrosas. Confio que um político com a sua trajetória exemplar estará à frente da luta por mudanças estruturais na dinâmica política que hoje se vê obrigada a aprovar emendas desastrosas por conta de arranjos partidários.
As coisas estão mudando do lado de cá dos eleitores, e mudarão também – mais cedo ou mais tarde – na deturpada esfera política do jogo partidário de interesses restritos de sujeitos que manejam a política segundo interesses de grupos de poder.
O fato de o deputado Emiliano José ter respondido à uma colocação de um eleitor demosntra que o deputado mantém aberto o diálogo e se preocupa com o debate político para além do parlamento, o que é bom sinal! Importante também que esse diálogo se dê a partir de uma rede social, o que evidencia a importância desses novos canais de interação na internet.
Cabe, porém, decidir de que lado você está, deputado: do lado da mudança? Ou do lado da perpetuação do jogo político viciado que o faz aprovar emendas do desastre?
Por fabricio kc, um eleitor baiano.
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