O problema Mondrian

Arte e Entretenimento - Ronda Noturna

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Mondrian é um ótimo exemplo de como a teoria pode estar afastada da realização prática de um artista.

Vejo a obra de Mondrian como um problema. Vejo Mondrian como um problema. Interessante, é verdade. Mas sempre um problema.
Mondrian foi um artista tremendamente coerente, e seu pensamento é talvez o mais claro entre todos os pintores modernos. Necessita-se saber da sua ligação com a Teosofia para entender sua reflexão e sua prática.
Resumindo uma história que pode ficar muito longa: para Mondrian, as linhas ortogonais traziam em si todas as outras relações possíveis entre as linhas, e as três cores primárias, o vermelho, o amarelo e o azul, abarcariam todas as cores possíveis existentes. Utilizando-se apenas desse instrumental, Mondrian construiu sua obra. Linhas ortogonais, cores fundamentais e puras produziriam imagens que seriam a culminância de toda a história da arte.
Quando li seus textos, quando fui conhecer um pouco mais sobre a tal da Teosofia, entendi melhor sua obra, e não pude deixar de admirar sua extraordinária coerência. Mas...
E se deixarmos de lado toda essa teorização e considerarmos apenas o resultado dela, que são justamente suas telas? O que temos?
Vou dizer o que penso que sobra: belíssimos quadros decorativos, que ficavam muito bem nos halls de entrada de sofisticados apartamentos de pessoas muito sofisticadas e modernas nos anos 40s e 50s. E só.
Sendo muito franco, não consigo intuir, a partir das suas telas, todo o cosmos e seu desenvolvimento, como pretendia Mondrian. Vejo apenas aquilo o que realmente são: inócuos quadros decorativos. Não há porque condescender em relação a isso porque Mondrian pregava, como muitos outros artistas, que os problemas levantados por seus questionamentos deveriam ser resolvidos plasticamente, nunca no campo do pensamento. Justamente nesse ponto é que tudo desanda, tanto o pensamento quanto a prática: Mondrian começa a parecer um dogmático bastante grosseiro ao colocar como certas determinadas reações aos estímulos fornecidos por seus quadros (que foram concebidos de antemão e não durante a execução; é importante ressaltar isso no seu caso): ao tentar equilibrar aquilo o que é objetivo com aquilo o que é subjetivo através das já citadas linhas ortogonais e cores primárias, a emoção seria espontaneamente criada. Difícil pensar que essa conclusão não seja dogmática ou arbitrária.
Aqui, faço minhas algumas palavras de Francis Bacon: a arte abstrata transmite emoções muito aguadas, porque, na verdade, qualquer forma pode fazer isso. De certo modo, não passam de padronagens. Não quero generalizar e afirmar que toda a arte abstrata é débil: Rothko e Tàpies são pintores absolutamente intensos e dificilmente eu consideraria a arte deles como simples padronagem ou decoração inofensiva. Entretanto, tendo a considerar que bons pintores abstratos são extremamente raros e constituem exceção.
E Mondrian, a meu ver, não é uma dessas exceções.
Chamei-o de problema porque é muito interessante acompanhar sua linha de pensamento em seus textos e o modo como resolveu sua problemática em seus quadros, e a distância enorme que há entre a teoria e a prática, mesmo num sujeito tão coerente quanto Mondrian.
Não vejo o universo todo implícito em suas telas, como ele esperava que naturalmente acontecesse. Pode ser uma limitação minha, sem dúvida. Mas, foi pensando sobre as questões que sua obra suscita que acabei por achar que a arte, a verdadeira arte, aquela que é mais profunda e que me toca mais intensamente é aquela que passa pelas vísceras, e não pela mente. Acho que foi isso o que Cézanne quis dizer ao afirmar que, caso pensasse enquanto pintava, seu trabalho estaria arruinado. O espírito não pinta, quem pinta é o corpo.



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João Grando |20-04-2009 07:47:57
avatar Eu porém acho que a sua teoria enriquecesse seu trabalho, em vez do trabalho enfraquecer sua teoria.
Talvez ele tenha tido o filme um pouco queimado por causa do uso que fizeram de suas imagens, mas aí temos um outro ponto importante: a submissão da imagem a um conceito, é uma iniciativa importante. Além do que ele fez muito por uma "educação minimalista", que sem dúvida é de grande influência nos dias de hoje (se pensarmos em arquitetura e na Aple).
João Grando |20-04-2009 07:59:25
avatar Aliás, Marco, honra-me o que falaste na discussão no grupo do OPS, mas rebato a tua auto-crítica usando este teu texto de exemplo: tomar partido é também uma questão de originalidade. Um abraço.
Cesar Kiraly |20-04-2009 11:30:40
Mondrian, apesar de algumas loucuras, possui idéias filosóficas muito importantes, e ainda que não as tivesse, o seu trabalho não pode ser confundido com decoração de nenhuma forma. Existe uma completa argúcia na consciência da forma, da linha e da cor. Elementos que estão para-além da compreensão tradicional do gosto.
Marcos Schmidt |20-04-2009 23:49:39
avatar Caros João e Cesar: há uma conhecida carta de Cézanne na qual ele afirma ter escolhido trabalhar em silêncio até ser capaz de defender teoricamente seu trabalho. Mondrian faz o oposto: teoriza primeiro e realiza depois. A priori, não vejo problema com nenhum desses posicionamentos. Pode-se ser um grande artista adotando-se uma ou outra postura. O que me intriga em Mondrian é que na sua teoria estão, lado a lado, a mais absoluta clareza de pensamento e uma rigidez enorme, que para mim acabam por diluir o resultado concreto do seu trabalho.O ponto central para mim é o seguinte: Mondrian parte da premissa de que a arte é essencialmente universal e sua expressão não pode, portanto, ser subjetiva. Meu bode com essa afirmação é que por trás dessa busca pelo universal reside um elemento místico (e isso permeia boa parte dos seus textos), e intuo que, quando usa o termo universal, Mondrian quer dizer europeu. Não é à toa que Argan o chama de a consciência mais civilizada da arte moderna. Mas isso está ficando longo demais prá um comentário: acho que já encontrei o assunto para o artigo dessa semana. Um grande abraço a ambos!
Gilberto Agostinho |21-04-2009 09:56:57
avatar Caro Marcos, eu concordo com muito do que você disse. Eu sou um compositor de música clássica e gosto muito de música contemporânea. O problema, para mim, é que muitos artistas contemporâneos erguem suas obras sobre pilares da filosofia. Até aí, nenhum problema. Mas não existem outros pilares para eles! Sua arte é muitas vezes pobre fora da discussão que elas propõe. O exemplo mais forte que eu conheço, no âmbito musical, é "3'44" de John Cage. São três minutos e quarenta e quatro segundos de silêncio. A filosofia por trás é bela e a discussão é pertinente, mas como música é algo pobre. Para mim estes artistas são pessoas a serem estudadas, dada a sua contribuição, mas não a serem seguidas. Eu já acreditei muito na morte da arte, mas sinto que existe um movimento contrário surgindo agora (na verdade, surgindo há muito tempo, mas de maneira calada). São artistas que evitam associar-se com escolas ou estilos, sejam eles modernos ou passadistas, e que trabalham com as melhores ferramentas que lhes convir.

Um grande abraço!
Marcos Schmidt |21-04-2009 21:54:37
avatar É curioso você citar o 3.44 do John Cage, Gilberto. Há séculos atrás, quando fazia arquitetura, eu e mais 2 malucos apresentamos uma performance da dita cuja numa aula (que não consigo me lembrar do que era). Ficamos lá, eu com o relógio, um com um violão e o outro com um triângulo, ou algo parecido. Depois da coisa toda, conversávamos a respeito e nos parecia que aquela obra pertencia mais ao âmbito da arte conceitual do que propriamente da música. Acho que essa foi uma excelente analogia: pessoalmente gosto muito de música contemporânea (se bem que parei no Xenakis, tô meio defasado), mas John Cage não é um cara que eu sinta a menor vontade de ouvir. É bem o que você afirmou: a teoria é boa, pertinente, mas a prática é bem menos interessante.
Mudando um pouco de assunto, como andei meio afastado do OPS, fiquei meio por fora do que acontecia por aqui. E só hoje, lendo seu comentário é que me liguei que o Gilberto Agostinho que escreve aqui é o mesmo G. S. Agostinho que eu baixei outro dia no PQP Bach! Caraca... Que vacilo, o meu! Gosto particularmente da Sonata e do Trio, que por algum motivo que não sei bem qual é, gosto de ouvir junto com o Ginastera. Puta música, cara! Espero ouvir mais coisas, e logo!
Um grande abraço e parabéns pelo trabalho!
Gilberto Agostinho |22-04-2009 07:18:09
avatar Marcos, antes de mais nada obrigado por ter baixado as minhas composições e pelos elogios! Sinceramente, obrigado. Eu estou finalizando uma obra maior agora, um Concertino para Flauta e orquestra, e devo negociar uma postagem no PQP, caso ele se interesse. E obrigado também pela visita na minha coluna!

Mas voltando a discussão, é importante não confundirmos música contemporânea com música 'avant-garde'. Esta última é somente uma das milhares de possibilidades para se compor hoje em dia e é tão válida quanto o neoclassicismo (como Shostakovich, um dos meus compositores favoritos) ou como a música dos minimalistas, entre outros exemplos. Eu não sou um grande fã da dissonância pela dissonância e das regras pelas regras. Na minha opnião, o século XX foi, em grande parte, o século da desconstrução. A coisa começa a ruir no final do XIX e culmina na relativização de todos os conceitos possíveis no XX. E eu não falo só de música, falo de arte de uma maneira geral, de filosofia, de política. Mas aparentemente uma nova ordem não imposta começa a reaparecer. Schoenberg, por exemplo, tentou convencer Deus e o mundo a utilizar um sistema de composição para renovar o 'esgotado' sistema tonal, de acordo com ele. Só que o sistema proposto por ele envelheceu rápido demais! E percebemos que é muito mais fácil compor algo tonal e original hoje do que algo dodecafônico e original. Eu utilizo todas estas técnicas quando elas me convém, sem me apegar às regras ou às escolas, sem abraçar nenhum 'ismo'. Acho que hoje em dia os artistas são mais livres do que nunca, e esta liberdade talvez seja nauseante demais para a grande maioria. Ainda encontro defensores fervorosos de algum tratado escrito em alguma rocha em alguma década do século anterior. E são os mesmos fervorosos que defendem a quebra de valores, que tentam destruir todo o tipo de crenças que todos temos. São incoerentes, mas nem só por isso eu não gosto da sua arte. Sua arte é uma repetição, sua arte é árida e me diz pouco. Você citou o Xenakis, e eu te digo que tenho dificuldades de ouvi-lo. Estes dias eu estava ouvindo-o e não estava gostando do CD, então passei a ouvir uma ópera de Poulanc. A introdução da ópera talvez fosse tão dissonante quanto a obra de Xenakis, mas havia ali toda uma gama de significados. Não eram apenas violinos utilizando técnicas diferentes, era arte entendida como expressão, como renovação, como profundidade de pensamentos. E isto sim me agrada.

Enfim, já estou me alongando demais. Vou continuar visitando sua coluna, a qual eu já acompanho há um grande tempo. Um grande abraço!
Marcos Schmidt |22-04-2009 11:12:02
avatar Caro Gilberto, eu é que agradeço sua generosidade ao disponibilizar sua música no PQP Bach prá gente ouvir. Generosidade tá virando artigo raro...
Queria também que você relevasse qualquer bobagem que eu cometa aqui a respeito de música, que é a coisa que mais gosto nessa vida, tanto quanto pintura; acho que às vezes até mais. Mas sinto uma enorme frustração porque tenho uma dificuldade enorme para compreender as coisas mais básicas. Rapaz, como eu queria ser capaz de ler uma partitura...
Voltando ao tópico dessa nossa conversa, concordo contigo quando afirma que o século XX foi o século da desconstrução, ou, às vezes, destruição de fato. Acho mesmo que o século XX ocupa um lugar distinto na história, é um divisor de águas que é diferente dos demais, e que ainda hoje não temos a noção exata do que isso significou, muito menos as conseqüências dele. Nunca tivemos tanto acesso à informação, muito menos na velocidade em que isso se dá, nunca fomos tão autoconscientes como o fomos a partir do século XX.
Tem algo muito interessante nisso tudo também (e espero não falar besteira ao extrapolar algo que percebo nas artes plásticas para outros campos): muito do que se discute e se faz ainda hoje nas artes visuais e me parece que também na música é produto da efervescência da primeira metade do século XX, e, sendo rigoroso, das duas primeiras décadas. E o subproduto mais nefasto disso tudo que ainda sobrevive é justamente a avant-guarde. Porque o valor de uma obra passou a ser medido quase que exclusivamente por esse critério. O que me deixa louco é que a maior parte disso que se chama de avant-guarde é muito velho. O cara copia Duchamp, copia Beuys e acha que é automaticamente a vanguarda da vanguarda porque Duchamp e Beuys foram, um dia, a vanguarda. Me parece que o mesmo se dá na música contemporânea, e talvez em qualquer atividade criativa. É o mais descarado auto-engano!
Cara, isso é assunto prá mais de metro prá ficar aqui nos comentários. Acho que vou sugerir pro Rafael que se crie uma seção específica para discussões.
E antes de encerrar: a culpa de conhecer o Xenakis é do PQP Bach. E acabo gostando dessas coisas porque tendo a gostar de barulheiras... Mas tô ouvindo Pergolesi enquanto escrevo isso, juro!
Valeu pela atenção, Gilberto!
Gilberto Agostinho |22-04-2009 16:40:22
avatar Pô Marcos, acho que nem é questão de generosidade. Eu componho não só porque gosto, mas porque me sinto impelido a fazê-lo. Eu já não sei viver sem escrever minhas notas, e não existe motivo para guardá-las no armário. A música erudita é um campo bem árido para os compositores. Ninguém recebe para compor, absolutamente ninguém se sustenta com isto. Então que vá para a internet! Desde que as pessoas respeitem a autoria das minhas composições, elas podem publicá-las aonde for. Eu sinceramente fico feliz com isto. Aliás, eu andei dando uma olhada no seu site e gostei muito do seu trabalho. Achei suas pinturas e ilustrações interessantíssimas.

Quanto a ler partituras, isto é um problema fácil de se resolver! Realmente a teoria musical básica não é algo tão difícil, e um bom livro ou um bom amigo podem te ajudar muito nisto. E eu te digo que é algo que vale a pena demais: não existe prazer maior do que ouvir uma sinfonia com a partitura na mão! Você pode se concentrar em vários detalhes que passariam despercebidos somente pelo ouvido.

De resto, já percebemos que temos posições parecidas, o que anda sendo algo raro. Eu sou um rapaz bem fechado, principalmente quando se trata de arte. Não que eu não saiba ouvir opniões diferentes, muito pelo contrário aliás, eu só cansei de dar soco em ponta de faca. Odeio discussões somente pelo discutir, pelo impor, pelo aparecer. Foi isto o que me atraiu para o OPS!, um ambiente muito mais natural para se discutir.

Vamos ouvindo nossos Xenaki's e Pergolesi's então, e conversando sempre que possível. Vou continuar com as minhas visitar por aqui.

Grande abraço!
Marcos Schmidt |23-04-2009 08:13:33
avatar Caro Gilberto: fiquei curioso com algo que você escreveu, até porque conheço muito pouco sobre as contingências dos compositores contemporâneos, sei apenas que são muito complicadas. Aí você diz que está finalizando um Concertino para Flauta e Orquestra. Como é que se grava, ou se executa, um trabalho assim? Deixa eu me expressar melhor: você compõe uma obra de fôlego, que exige uma orquestra inteira para executá-la. O que acontece em seguida? O que é que você precisa fazer para mobilizar os recursos que necessita para a execução do trabalho? E como é que o trabalho de um novo compositor chega às mãos de um regente de uma orquestra e, chegando, ele tem autonomia para bancá-la e incluí-la no repertório? Pergunto isso porque às vezes, quando leio sobre o mundo da música clássica, parece um mundo à parte, cheio de regras, tradições e interesses muito particulares e rígidos.
E quanto a leitura de partitura, meu caro Gilberto, o pior é que 2 ou 3 amigos já tentaram me ensinar a ler. E às vezes fico vendo uns daqueles vídeos do YouTube em que a partitura fica acompanhando a música. Mas acho complicado, cara! Vai ver que é porque eu e a matemática não nos damos muito bem... Aí só fico imaginando o que estou perdendo. Vou dar um exemplo: o quarteto de cordas op. 132 do Beethoven. Tem aquele terceiro movimento no modo lídio (que também já tentaram me explicar o que era fiquei olhando pro sujeito com cara de idiota). Só percebo o seguinte: há uma certa aspereza naquilo, as frases não se completam do modo que eu esperaria e aquilo tem uma beleza que não é desse mundo. Aí , no movimento seguinte, tem um corte brusco, que parece que te derruba das alturas em que você estava e, no último movimento, mais uma vez uma das coisas mais belas que já ouvi, só que me parece uma coisa apaixonada, humana, diferente da beleza do terceiro movimento. É esse tipo de coisa que queria entender melhor, o que se passou ali realmente, prá não ficar só nessas minhas analogias toscas. E volto a pensar no que estou perdendo...
Bom, por enquanto é isso, que tenho que voltar pro trabalho... Um grande abraço, Gilberto, e espero não estar lhe aborrecendo demais com minhas perguntas!
Cesar Kiraly |22-04-2009 10:30:27
ah sim, Mondrian comete excessos e algumas falsidades teóricas. Em filosofia não é constrangimento dizer que algumas teses formalistas são falsas, como a definição do pictórico pela planaridade também é falsa. E não se trata de compreender os artistas e os teóricos de acordo com o tempo. Podemos ser mais cruéis do que isso. Mas existe um aprofundamento da plástica e da composição nas obras de Mondrian que são completamente verdadeiras. Existe uma estratégia da cor a ser pensada. Existe uma significação dos objetos acrescentados e subtraídos ao plano que é muito importante. E essa percepção não precisa ser compreendida pela cultura. Acredito que a mesma coisa pode ser vista na música. Agora, o desconforto que vocês sentem com relação a justificação teórica das obras de arte é um pouco verdadeiro e um pouco injustificável. Penso que é verdadeiro, porque cria compartimentos artísticos. E falso, porque não se deve levar muito a sério os compartimentos. A teoria possui plasticidade bastante artística. Existe uma expressão na linguagem teórica. O desconforto é ler teoria como algo que informa sobre idéias e sobre práticas, e não como alguma coisa que produz cor e som. Nisso, pode existir algo de importante.
Marcos Schmidt |22-04-2009 12:15:47
avatar Caro Cesar: antes de tudo, fico muito agradecido pelas suas colocações, que me fazem pensar e repensar um bocado. O que, aliás, vou fazer mais um tanto de vezes antes de escrever o próximo texto, sexta-feira.
Creio que meu problema com Mondrian fica mais intenso por causa de duas coisas. Uma delas é justamente o que o João Grando comentou anteriormente: a vulgarização de suas imagens. Eu ia digitar conceito, mas acho que essa multiplicação de suas obras se dá num nível mais superficial. Eu, que nem sou dos sujeitos mais sociáveis desse mundo, já cansei de ver reproduções de seus trabalhos pendurados em paredes de apartamentos apenas porque combinam com os móveis e passam uma idéia de bom gosto. Mondrian, naturalmente, não tem nada a ver com isso... Outro ponto que me incomodou, ao mesmo tempo em que me interessou, foi a leitura do seu Pure Art and Pure Plastic Art. Temo ser repetitivo, mas sempre me pareceu intrigante que ao final de trechos e passagens de uma lógica irretocável, Mondrian concluísse seu pensamento com afirmações que, para mim, pareciam arbitrárias, ou mesmo dogmáticas.
Não nego a importância da teoria. E confesso que só me interessei pela obra de Mondrian após ler seus textos. E talvez eu próprio esteja sendo contraditório ao tentar analisar a obra de um artista apenas através do que vejo, e, ao mesmo tempo, ficar atrapalhado pelo que sei de sua teoria. Mas daí eu contraporia a obra de Paul Klee, cujo pensamento é tão coerente quanto o de Mondrian, e que realiza esse pensamento de uma forma que o vejo concretizado nos seus trabalhos.
Vou parando por aqui para não me estender demais. Mais uma vez, agradeço suas intervenções, Cesar, que são sempre pertinentes e muito bem vindas.
Um grande abraço!
Gilberto Agostinho |23-04-2009 11:33:46
avatar Caro Marcos, você não me aborrece de forma alguma. Eu naturalmente gosto muito de conversar sobre os assuntos de meu interesse, mas sou muito fechado para isto devido a postura típica que as pessoas assumem ao discutir arte, filosofia ou qualquer outra coisa. Esta conversa está sendo muito interessante para mim.

Olha, a música erudita contemporânea é uma área estremamente árida e difícil. Não existe praticamente nenhuma oportunidade de um trabalho como o meu ser executado, e isto é algo com que eu tenho de lidar. Mas eu tenho uma paciência grande. Meus trabalhos são todos juvenis, e eu imagino que talvez possa produzir algo de qualidade em somente em algumas décadas, ou até mais. "Mas se já puder ter algum valor, melhor ainda" disse Leverkühn, o compositor que foi personagem de um dos maiores livros que eu já li, "Doutor Fausto" do T.Mann. Eu concordo inteirament com a postura dele. Deixarei as coisas fluirem, estarei me esforçando e aprendendo no meio tempo e se surgir a oportunidade de apresentar meu trabalho um dia, então será ótimo. Mas compor é algo impulsivo para mim, e eu não vou atrás de apresentações do que componho, nem de obras pequenas para grupos de câmara. Vou acumulando manuscritos e manuscritos. Sei lá, talvez um dia alguém ache esta papelada e dê algum valor para isto, ou eu posso ganhar algum concurso de composição e fazer uma pequena fama. Mas tudo isto me soa muito ruim, para ser sincero... Concurso de artes é algo que eu desprezo, politicagem para mostrar seu trabalho também. Então eu vou apenas compondo e esperando o tempo passar. Se um dia eu achar que o que eu componho é de extrema qualidade, então eu talvez decida lutar para mostrar isto para algum regente. Entenda que não é uma humildade simplista, eu acredito no meu talento sim e acredito que posso chegar longe. Só não quero abrir a boca antes da hora. Mahler, por exemplo, queimou todas as suas composições juvenis (e os resquícios delas são excelentes obras de arte!) para nos deixar apenas nove sinfonias e várias canções. Apenas? Se você conhece Mahler você saberá o valor do seu legado.

Sobre leitura musical e teoria, esta é uma questão complicada. A grande maioria dos músicos que conheço somente vêem notas à sua frente, nada mais. Sua visão é muito mais profunda do que a grande maioria deles. Se você é capaz de sentir a estranheza do modo lídio sem saber ao certo o que ele é, então você está no caminho certo para uma apreciação musical plena. Sabe, teoria se ensina, sensibilidade não. Uma vez estive discutindo sobre o pessimismo de Mahler e seu medo da morte, e uma amiga me disse que eu era um arrogante tentando ver algo além de notas. Ela é instrumentista, eu compositor, o que talvez explique as visões diferentes. Mas é uma pena... toda aquela filosofia, toda aquela profundidade é perdida por um relativismo total, por uma arrogância em definir as coisas. É fácil dizer que música são notas, o difícil é olhar aquelas notinhas simples que Bach escrevia e entender como ele pode retratar toda a gama de sofrimentos e felicidades humanas com elas.

Eu já ensinei muita gente a ler partitura, e mesmo as pessoas que não tinham uma relação boa com a matemática conseguiram. Talvez você não tenha dado sorte com as explicações. Esta é um dos grandes defeitos dos professores: entender aonde se encontra as dificuldades dos seus alunos. Muitos bons professores acabam condenando alunos tidos como ruins, mas estes só precisavam de uma visão diferente. Se um dia nos toparmos em Sampa para tomar um café eu posso tentar ver se consigo te ajudar em algo.

Quando eu mal sabia ler partituras para piano, meu professor de composição me colocava partituras de orquestra na minha mão. Eu ficava completamente perdido, e ele normalmente virava as páginas para mim, já que eu não era capaz de me achar ali. Mas aos poucos a coisa foi indo, eu ia reconhecendo padrões, enxergando as entradas dos instrumentos. Hoje eu consigo acompanhar bem qualquer obra.

Novamente estou me alongando demais e não sei se estou invadindo o seu espaço aqui. E o concertino está prestes a ser concluído, e eu teria o maior prazer em te mostrar o resultado final assim que possível.

Um grande abraço!
Marcos Schmidt |25-04-2009 09:54:17
avatar Meu caro Gilberto, quando você estiver aqui por São Paulo (porque tá meio difícil de eu dar uma passada aí por Praga...), vamos nos encontrar prá tomar esse café, não tenha dúvida, mas, por favor: veja se não dá prá trazer uma garrafinha de Becherovka prá lubrificar a nossa conversa! Caceta, você deixa a gente na fissura e vamos ficar só no café???
Interessante o que você falou da diferença de visão entre o compositor e o instrumentista; não imaginava que houvesse esse tipo de distinção. Achei estranho mesmo, isso de se ver apenas as notas. É como se eu fosse ler um texto letra por letra, sem nem mesmo atinar que elas formam palavras que formam frases e que constroem algo que é mais que a soma desses elementos. Mas, sei lá, meu caro Gilberto... O mundo dos músicos é muito particular. Lembro que Schopenhauer fazia uma distinção entre as artes e colocava acima de todas a música, por ser ela a própria Vontade. Às vezes, quando ouço algo como o quarteto de John Coltrane, penso que aquela interação entre os músicos durante a execução é o que há de mais próximo de uma comunicação absoluta, sem ruídos. O resto me parece mal-entendido, sempre. Mas agora fiquei na dúvida: será que ali também eles pensam apenas nas notas que executam? Não há uma percepção do todo?
Rapaz, esse negócio de música é muito complicado...
Paro por aqui, e fico aguardando o Concertino!
Um grande abraço!
Me tuíta!
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