Arte e Entretenimento - Ronda Noturna

O maneirismo foi um movimento muito peculiar da história da arte. Vários autores consideram-no como uma forma de transição entre o estilo da Alta Renascença e o Barroco. Na verdade, foi muito mais do que isso...
O maneirismo foi o primeiro movimento autoconsciente da história, que tinha plena consciência das tradições que existiam e que encarava os problemas da arte de maneira lógica.
Pintores como Pontormo, Parmigianino e Beccafumi sabiam que, ao iniciar um trabalho, deveriam resolver uma equação que relacionava o conhecimento de toda uma tradição com a necessidade de inovação. Não é por acaso que a reavaliação positiva do maneirismo tenha se iniciado exatamente com o advento do modernismo. São inúmeras as possibilidades de analogia entre o maneirismo e o cubismo, por exemplo. Além disso, o maneirismo marca uma cisão entre natureza e arte, entre uma visão natural e outra antinatural.
O maneirismo é a arte de um tempo convulso, e o modo como essas atribulações são transpostas em pintura ou escultura é sua grande riqueza: elas formam um painel amplo, complexo e agitado das inquietações de um ser humano empenhado em confrontar as contradições da existência ao invés de contorná-las. Alguns datam sua origem em 1520, com a morte de Rafael. Outros usam como marco divisor a obra de Michelangelo, sem dúvida, o artista que incorpora em sua obra todas as inquietações do homem do seu tempo. Como já foi colocado por vários autores, Michelangelo é o ápice e, ao mesmo tempo, a superação do Alto Renascimento; ou, como escreveu Wöllflin, o “cume estreito, que é transposto no mesmo momento em que é alcançado”.
O “Juízo Final” da Capela Sistina é uma luta aberta contra o cânone renascentista, um golpe furioso na concepção homogênea da arte de Masaccio e Piero Della Francesca. As torturadas figuras da parede da capela dão a régua e o compasso para os artistas posteriores; ali se encontra, já completo, o tumulto espiritual do homem do Cinquecento, uma necessidade premente de se romper as regras de contenção e harmonia do classicismo e de explicitar as contradições do homem (e, por extensão, da arte) e do seu tempo. A beleza, definida por Alberti como a relação harmoniosa de todas as partes, não tem vez na obra tardia de Michelangelo. Esta relação harmônica entre objetos e o espaço da arte clássica (que culminava em unidade espacial) é arrebentada: as figuras se acumulam, o espaço entre elas é distorcido, ou mesmo abolido; as diferenças de tamanho entre os objetos em planos distintos é exacerbada; motivos secundários ganham destaque, ao passo que o tema principal é, constantemente, depreciado; a preferência pelo artificial e pelo complicado, o extremo intelectualismo que transforma a arte em charada a ser decifrada por iniciados. Artistas como Michelangelo e Pontormo são homens conscientes de que são herdeiros de uma certa tradição, e que esta deve ser confrontada com os problemas de sua própria era.
E esta era, com o saque de Roma, as guerras com espanhóis e franceses, a Reforma, foi particularmente agitada para os italianos. O maneirismo também é assim: turbulento, intenso, enigmático e contraditório. É o resultado de um embate constante entre uma tradição clássica e uma força interna de caráter anti-clássico. É uma arte sofisticada, acessível apenas a um público muito reduzido. Talvez por isso, o maneirismo tenha sido menos abrangente e tenha tido menor duração do que o barroco. Autores com Arnold Hauser, aliás, consideram que suas diferenças são menos estilísticas do que sociológicas: o maneirismo é um estilo aristocrático, culto, refinado e internacional; o barroco, mais popular, emocional e regional.
A Igreja acabou por fazer uso do barroco na propaganda da Contra-Reforma, e a própria arte das cortes e dos palácios acabou por adaptar o barroco às suas necessidades, transformando o conteúdo emocional e espiritual em enorme teatralidade.
A idéia de que a história da arte é constituída de recorrentes ciclos pré-clássico, clássico e barroco ganhou adeptos e relegou o maneirismo à condição de “estilo de transição”. Não é.
É um modo distinto e autônomo de se olhar e de pensar, e que, quanto mais tenso e contraditório, mais rico e interessante.
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