Cri-critica-se (ou o silêncio da sutileza)

Arte e Entretenimento - Cultura saturada

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Há uma sensível diferença entre os vinhos, mas é a sensibilidade que faz o violino tocar.

 

Uma vez, à época que começava a me interessar mais criticamente por cinema (ou que a análise de filme passou a necessitar ser mais que uma mera bifurcação “filmão/ bomba”), ouvi dizer de Cidadão Kane um exemplo de filme moderno e Veludo Azul de um pós-moderno. Se ambos se aproximam por serem raros casos de títulos traduzidos literalmente do original, instintivamente eu notava certa oposição formal (e mais que isso) entre eles, porém precisei de um conhecimento teórico sobre a caracterização dos termos para notar em Blue Velvet a sistemática de apropriação e pastiche da pop art e afins e assim perceber nele uma destinação a mentes poluídas, mentes já poluídas pelo turbilhão de imagens do século: só se pode ser original se se levar ao extremo a citação ao que já há, porque o que já há é muito (e o extremo da citação é o plágio assumido, a recontextualização, o uso intencional dos clichês para explorar o imaginário comum).
E graças ao conteúdo teórico que pude corroborar o limite estabelecido pelos 60’s relativamente ao século XX (assim como do século XX em relação ao milênio): o moderno substitui o antigo, o pós-moderno substitui o moderno e embora aquele esteja neste (noção já embutida na palavra), são antônimos: o moderno já é passado.

Como disse, percebera isso instintivamente. Assim como instintivamente eu via alguma coisa errada na Arial em caixa alta quando queria usá-la para fazer cartazes.

E a coisa errada da Arial é que ela não é a Helvética.
Ninguém (ninguém = maioria) vê (ou se importa com) a diferença entre Helvética e Arial.
A Helvética, para além de ser vastamente utilizada (no seu teclado muito provavelmente as teclas são indicadas por ela) é – também por esta funcionalidade popular - um índice de modernidade: chega a ser cultuada. O é por ser o ápice da busca de uma simplicidade funcional, um conceito moderno. Ápice porque, embora deva muito a quem lhe precedeu (como a fonte Akzidenz-Grotesk), atingiu o ponto de aliar aceitação crítica (especialista) à popularidade: como Picasso relativamente a Cézzane e, até mesmo, Matisse, ou os Beatles em relação aos dinossauros do rock and roll dos 50’s.

A Microsoft, que usa a Helvética em seu logo, a fim de não pagar licença criou uma fonte própria para substituí-la e a incorporou em seu pacote Office (Word, Excel, PowerPoint) à quase sua imagem e semelhança: e assim nasceu a Arial.

O r maiúsculo da Arial tem a perninha diferente do da Helvética. O a minúsculo é diferente. O g maiúsculo é também diferente. E, mais que isso, no conjunto das letras, a Helvética parece ter mais tectonicidade, uma vez que as simplificações da Arial foram suficientemente tímidas para não a transformar nalguma coisa assumidamente leve como a Trebuchet MS.

Pois bem: via algo estranho na Arial, mas agora sei bem o que é. Pois adquiri o conhecimento a respeito: a crítica tem também sua técnica.

E com esta técnica que se percebe a importância da obra Campbell's Tomato Soup, de Andy Wharol, copiada identicamente do produto original (dizendo assim “a vida é igual à arte”, “não existe autor”, “meu olhar é que é genial, não a obra” entre outras tantas coisas (ou mesmo a ação de não as dizer) com um gesto simples): obra tão ou mais poderosa que a fonte de Duchamp (embora fiquemos com o “tão”, pois Duchamp, ao lado de carinhas como os já anteriormente citados Picasso, Matisse e Cézzane, talvez ocupe o topo de uma hierarquia, ao qual conseguintemente resta aos demais apenas (tentar) alcançar, sem jamais ultrapassar, dada a vantagem que a história dá àqueles que se aventuraram na missão de descobrir, iluminar, e que podem carregar o passado com o orgulho de um recorte de um presente alterado, de um futuro parido).
É com esta técnica crítica que se percebe a importância do trabalho de um Braque no cubismo, muito ofuscado num plano não erudito pela celebridade de seu parceiro famosão o pela terceira vez citado Picasso.

E com esta técnica adquire-se segurança para voar acima dos segundos cadernos e questionar distinções, cinco estrelas, bonequinhos em pé aplaudindo n’O Globo.
Cuidado com o bonequinho d'O Globo.


Falando nisso, peguemos o cinema para exemplificar: há muitas maracutaias nesta área: não é o caso d’O Sexto Dia ou 300 (de Esparta), filmes feitos deliberadamente para divertir (e que, dentro de um contexto maior, têm uma significância por representarem aquele cinema-entretenimento (quando uma palavra não exclui a outra do outro lado do hífen), que vale por duas horas – você não vai assistir a um espetáculo do Ary Toledo com outro objetivo (ainda que não venha a se cumprir) que não o de ter o abdômen doído de tanto rir). E a superficialidade tem grande valor (especialmente quando a rapidez é uma obrigação). O problema então é com os Benjamin Button da vida, Réquiem para um Sonho – acreditem-me, estes são filmes que nos enganam: são Ariais (o direito adquirido de se usar como bem entender não é tirado de ninguém, então chorar ao assistir Em Busca da Terra do Nunca não é problema algum, experimentar uma formação de beleza baseada na feiúra, encantar-se com uma forma alternativa de construção ao assistir Confissões de uma Mente Perigosa (e achar que por causa deste filme Charlie Kaufman é genial, quando este foi seu roteiro mais (ou o único) prejudicado pelo diretor) não é problema nenhum – são todos sentimentos honestos – se você quiser usar Arial para escrever algum recado no seu escritório ou até mesmo fazer um cartaz, tudo bem, mas jamais fale dela como índice de excelência de design, porque isso pertence à Helvética. Este é o ponto.

Prêmios como o Oscar têm uma lógica própria, é quase como uma piada interna, quase como o status de um funcionário numa empresa, porquanto não devem servir de distinção num nível mundial: devem ser discutidos, mas dentro da lógica do prêmio (o verbo vencer e o adjetivo melhor não combinam com as artes). E daí o Health Ledger faz o papel do Coringa e todo mundo sai da sala dizendo “o Oscar é dele”, sendo que a maioria esmagadora dos outros concorrentes (as atuações e não os atores) nem foram conhecidas. Como designar um melhor sem conhecer os piores que ele? É fundamental conhecer para criticar, ou ao menos ser suficientemente honesto para apresentar as características da opinião (se é pessoal, leiga etc.)

O outro lado da moeda (porque a maioria das coisas são moedas, têm seu outro lado, e mesmo quando não são, como bolas, podemos supor um lado de dentro, podemos supor um contrário) é aquele pessoal que após descobrir a Helvética a usa como ferramenta para aumentar um status, exibindo seu conhecimento sem usá-lo, desprezando tudo que não seja suficientemente hermético para distingui-lo (isso seria como o festival de Cannes, ou como quem deifica o também anteriormente citado Andy Wharol sem supor que alguém venha a se comparar a ele, quando era justamente isso que ele, na teoria, pois na prática ele entrou no sistema (quase, mas não tão radical, como o Chê estampando num biquíni de grife) condenava). Em verdade, esta moeda e seu outro lado está mais para o outro lado do exemplo, pois o problema é o mesmo: o uso dos adjetivos. “Inteligente”, por exemplo: dizem “CQC é humor inteligente”, e aí carimbam isso no CQC e as pessoas assistem ao programa sem o peso na consciência (ou no status pseudo-intelectual) de passarem por abobados, como seria o caso de quem vê o Pânico, que, opinião pessoal, é de grande inteligência ao assumir a selvageria do humor e assim buscar um riso primitivo, sem abrir mão de pequenos jogos ao aproximar o ridículo dos valores contemporâneos, ao pôr gostosonas fazendo um papel pejorativo da imagem de si mesmas.

É também o caso de quando chamam refinada a letra de Zeca Baleiro, é o caso de quando utilizam deliberadamente o mesmo adjetivo “inteligente” relativamente ao programa Saia Justa (que eu nem sei se está no ar ainda), da maioria das minisséries da Globo, dos “brilhantes” sem grandes exigências: são láureas à mediocridade, a uma mediocridade estabelecida de conhecimento, que esquece da criatividade para se satisfazer com qualquer coisa que não seja débil (aliás, abordei um pouco disso na minha coluna anterior, reforçando que mediocridade tomou um tom pejorativo, mas a conotação que utilizo é anterior a esta mácula, ou seja, simplesmente significa médio). E os exemplos dados ainda são exemplos fáceis, pois deveríamos tirar alguns pedestais por aí (pensemos que Niemeyer, por exemplo, a despeito de todo o respeito e honra que merece, tem muitos furos funcionais para tapar em uma obra que ganhou um status quase unânime por fazer uma releitura de um Brasil primitivo (sempre há um eco de Oswald nisso, que faz das coisas sob o tal eco quase intocáveis num contexto erudito (samba, bossa nova, tropicália etc.)).

Contigo! - Lista da Bravo! - Biblioteca

Há que se reconhecer a inteligência de um Tiririca, de um Sérgio Mallandro. De um Fábio Júnior. Aliás, ótimo exemplo: afinal as mulheres desmaiam no seu espetáculo, e as mulheres certamente sabem ser críticas em se tratando de desmaio.

É uma questão de sutileza. Uma sutileza que toca o lugar onde acontece o prazer de qualquer manifestação: a recepção individual. Ela vem perdendo espaço para a exteriorização desta recepção, que se confunde com as outras já exteriorizadas – grosso modo: arrotar caviar (nunca vi nem comi só ouço falar) sem sentir gosto de nada. Ou o caso da sutileza é ainda mais grave e ela, talvez devido a sua essência silenciosa, não sirva para o nosso tempo, como bem observa Luiz Carlos de Oliveira Jr., abordando o assunto sob a ótica da crítica cinematográfica. E novamente o problema não é na massa, na maioria: o caso do Joshua Bell fora de contexto tocando para uma platéia de desinteressados não serve de exemplo: o valor intrínseco na arte (título do e-mail pelo qual soube desta história) sempre foi hermético: os problemas (repito e faço questão) são dois: 1) quando este pessoalzinho que não percebe as sutilezas (repito e faço questão) de modo natural usa um conjunto de referências e saberes para encher a boca como se as percebesse e colabora assim somente para martelar preconceitos (as listas da revista Bravo não se dirigem assumidamente a um público leigo, tampouco agradam a quem realmente entende dos assuntos abordados: situam-se assim num meio do caminho entre a crítica e a divulgação, fossilizando um gosto que é elitista ao mesmo tempo que não é suficientemente exigente, colaborando tão somente para a mesmice (o mesmo caso de um livro bonitinho sendo vendido por aí com o título 1.000 filmes para assistir antes de morrer); 2) falar sem saber (repito-me de outros textos aqui também, posto que calha citar a facilmente traduzível frase de Leonardo da Vinci “Nessuna cosa si può amare nè odiare, se prima non si há cognition de quella”).

E falando em perceber se pode perceber isso em qualquer coisa, até na mais popular delas: o futebol que a torcida quer é ineficaz, quando não impraticável. Aquela velha balela de “até eu fazia”, “o cara ganha para isso e não consegue pôr a bola no ângulo na falta”, demonstram a simplificação que se faz de algo muito mais difícil, perdendo-se assim a oportunidade de deleitar-se com os detalhes próprios de cada atividade, de cada coisa (muitos 0 – 0 são verdadeiros jogaços, aulas de estratégia e futebol).

E já que estamos no popular, isso lembra-me a expressão “comigo é no popular”, então lá vai uma última metáfora já repetitiva, mas que vale para carimbar a idéia: há uma estagiária lá na repartição que tem a fama de ir à luta, a ponto de dizerem “ele sai dando helicóptero da Chun-Li em quem aparecer”. E é por aí mesmo, “dando”, “pernas abertas”, esta conotação sim. Mal nenhum. Mas ela faz qualquer um parecer F. Júnior.

E ainda que receie às vezes ser sintoma da era dos quinze minutos (eu não podia fugir do clichê de deixar esta medida e Andy Wharol no mesmo texto), da carência de bons leitores, me repleta a noção que sempre vivencio da recepção individual (não é à toa que tem gente por aí que sabe apreciar experimentos, um bom Bach, que sabe dar uma boas risadas com bobagens, que entende o que cineastas como Shyamalan propõe, que se divertem ouvindo Polvo).
A sutileza segue silenciosa, ou murmurando, para quem a quiser: a diferença entre os vinhos é sensível, mas é a sensibilidade que faz um violino tocar.

Texto complementar: A arte dá nos nervos

joao~grando [blog] [@joaogrando]



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Maína  - Bravo! |01-03-2009 07:22:13
João, muito bom. Um jorro e tanto, tô lendo e relendo e já passei para alguns artistas, designers e arquitetos amigos meus. Bravo, pensamento selvagem e tanto!!!
Abraços,
Maína
João Grando |08-03-2009 20:24:51
avatar Esse grupo de profissões tem de ficar especialmente espertos.
Abraços.
Rafael Coelho |02-03-2009 21:05:53
João, sim!

O lance é que os outros estão preocupados com que os outros vão pensar dos outros que os outros gostam.

Abço, meu caro.
João Grando |08-03-2009 20:25:15
avatar Faço minha tua palavra: sim.
Bruno |07-03-2009 00:11:58
Nossa, cara. É fantástica a propriedade com que você fala sobre o assunto, confirmando e reafirmando o que você mesmo colocou no texto: "Pois adquiri o conhecimento a respeito: a crítica tem também sua técnica. "
Seu discurso é extremamente agradável de ler (opinão pessoal, não crítica (ainda não me sinto no direito de criticar)).
João Grando |08-03-2009 20:22:01
avatar Mas opinar sempre é possível, desde que se seja honesto, e tu foste.
João Grando |08-03-2009 20:21:06
avatar Obrigado, amigos. Como respondi à @mainajunqueira, quando se é compreendido (ainda quando se fala em compreender, diminuindo assim o tchan da incompreensão) se percebe não estar a sós com as insatisfações.
E simplesmente era preciso dizer o que dizia em tudo quanto era conversa por aí.
João Grando |17-04-2009 08:09:36
avatar Li o texto Vanguarda e Kitsch de Greenberg e, logicamente adaptando-o à nossa época, é mais ou menos do que se tratou-se aqui. A ressalva entre vírgulas foi para superarmos a obviedade de que é um texto exemplarmente moderno, e portanto caído, mas o raciocínio e a sistemática de seleção me parecem bem coerentes (a rigor era mais ou menos o que eu aplico em se tratando de cinema (a linguagem não ser gratuita, estar submetida à poética) e isso se reforça pela maneira com que Greenberg justifica suas escolhas pelo gosto - um gosto Kantiano - e isso não me parece tão ultrapassado assim, talvez, especialmente pela maneira como parece (e talvez me iluda) eu pratique isso, resistindo a um sistema simples de associação) e aí podemos ter o Kitsch dentro do kitsch greenberiano, numa relação mais sensível. Isso até me parece óbvio. Mas, evidentemente não é. Mas ainda assim não sendo, devemos apenas nos desprender das críticas "anti-imperialistas" e reducionistas com os quais rotulam Greenberg, cujas existências provam que há mesmo dentro de um ramo erudito e sofisticado como a crítica de arte exemplos da falta de sensibilidade tão encontrada em outras áreas.
João Grando |17-04-2009 08:09:49
avatar Aliás, tenho submetido minhas leituras e reflexões à orientação de Luís Edegar de Oliveira Costa, o qual quase imediatamente entrou na lista de pessoas próximas que admiro, talvez mais por representar um espírito crítico que mesmo que não seja raro não faz parte do meu contexto usual (mesmo considerando
Cesar Kiraly |22-04-2009 10:36:40
eu ainda vou comentar o que escreveu com mais calma. Mas, antes de qualquer coisa, me encantam seus argumentos em caligramas.
João Grando |24-04-2009 06:29:12
avatar De um crítico de arte sempre se espera um comentário mais calmo, por ter certa responsabilidade. E isso sublinha para mim o elogio aos caligramas vindo de ti. Grando abraço.
Salomão Miranda |22-04-2009 18:36:39
Caro João,
li parte do texto hoje pela manhã e fiquei ansioso pra terminar agora à noite.
É admirável as referências não tão populares que tu citas, a exemplo de Andy Wharol e Shyamalan. Isso instiga leitores como eu a continuar neste caminho de conhecer cada vez mais o mundo.

Vivo numa residência universitária. Seria de se esperar discussões como esta que colocas no texto, mas aqui a mediocridade reina.

É por textos como este que meu senso crítico atinge níveis cada vez mais altos, pois é um texto que critica a própria crítica.

Quero agora ler outros textos seus. Abraço!
João Grando |24-04-2009 06:36:48
avatar Salomão, agradeço teu retorno, pois às vezes não sabemos como os textos são usados pelas pessoas/ leitores. E instigar é um belo cumprimento. Quanto à mediocridade governante, posso lhe assegurar que sempre há oásis por aí, em todas as coisas, basta saber procurar e (especialmente) não se incomodar com tal mediocridade que, por ser média, torna-se um meio-tom, um cinza necessário. E é muito interessante quando começamos buscar conhecer (e tentar (pois é sempre uma tentativa) compreender) coisas novas, coisas que nos marcam verdadeiramente.

Quanto a novos textos, estou para atualizar esta coluna, mas por enquanto pode dar uma olhada no que já tem lá no blog. Abraço.
Spilberg |24-04-2009 17:52:08
Pow, mas Shyamalan não propõe nada. Só chatisse. E esse seu texto aí, parece mesmo com as listas da Bravo. Fala de algo que não conhece, já que só cita o que é mediano, mas não enumera decidida e ilustrativamente o que seria realmente "bom". Cara, falando da lista da Bravo você parece mais a Contigo.
João Grando |27-04-2009 12:19:34
avatar Spielberg, gosto muito daquele seu filme E.T.
Quer dizer então que o Shyamallan gasta milhões de dólares, sendo um diretor que já fez um filme
João Grando |27-04-2009 12:21:34
avatar Bem, a resposta ao teu comentário não está aparecendo inteira. Azar, vou ver se resolvo isso depois.
Me tuíta!
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