
Amigo leitor, iniciando hoje nossos comentários sobre música (...) não poderiamos deixar de explicar-lhe o porquê do titulo de nossa coluna: Quiáltera.
Na Música, se se quer, digamos, numa peça ternária, aquela cujos compassos são todos 3/4, cada um com três semínimas, colocar mais uma nota, mais uma semínima, num lugar onde se vê que não cabe mais nenhuma de mesmo valor, além das três já existentes, usa-se o artifício chamado Quiáltera. Com ele pode-se introduzir mais uma nota naquele compasso aparentemente completo, ou em todos os compassos da música. As outras notas terão que dividir o tempo, seu precioso tempo de exposição, com a novata, recém chegada. Um leigo pode até pensar, e não sem razão: "Esta nota, que altera o tempo do compasso vai estragar o ritmo e subverter a música..." Não, claro que não, este artifício é simplesmente uma técnica muito usada por compositores. O Instrumentista que a interpreta, sabe dividir direitinho esse tempo com todas as outras notas, e a Quiáltera corre leve na peça, sem que ninguém note a intromissão desta, digamos, clandestina, que, na verdade, não veio absolutamente subverter qualquer ordem previamente estabelecida, nem tramar nos porões musicais revoluções de virtuose e de gênio.
Não é assim no mundo real? Nos escritórios, nas repartições, nas empresas, nas editoras? Sempre que surge um novato, em meio a um grupo qualquer que mantém uma relação de trabalho, pronto, dizem que surgiu um clandestino, "a Quiáltera".
Quantas vezes, no tempo da escola de nossa meninice, não testemunhamos a chegada de um novo aluno, no decorrer do ano letivo, quando o semestre ia já pela metade? Alguns, filhos de militares transferidos de outros Estados. Bem, motivos não faltavam, mas, invariavelmente, todos esses "novos colegas" eram logo vistos pela maioria dos veteranos como "clandestinos". As turminhas já estavam formadas, os grupos definidos, no recreio, cada qual com seu predileto... Não, não haveria lugar para mais ninguém, aquele intruso haveria de ficar ao largo, pois, viera subverter a ordem estabelecida, verdadeira "Quiáltera".
E nos escritórios e repartições? Aí sim, a coisa é braba, principalmente se o recém chegado tiver, digamos, caído de pára-quedas. Está instituída a caça às bruxas. -O clandestino é perigoso, trama contra nós e nossos empregos, está unicamente aliado ao chefe, e, há quem os tenha visto cochichando segredos secretíssimos. Dizem que é da KGB. "Quiáltera!" E assim, este pobre escriturário haverá de sofrer por um longo período.
Desta maneira, a situação se repete em todas as atividades humanas, aquela notinha extra, surgida no Compasso da Existência por obra do Compositor, há de provar um bom bocado de indignidade humana, até que percebam que é um seu igual, um seu irmão, nada mais que isso. E todas aquelas notinhas, Semibreves, Mínimas e Semínimas e Pausas e Acidentes e Floreios e, Quiálteras, são as construtoras da Grande Sinfonia nas mãos do Compositor!
Então, temos, constantemente em nossas existências, oportunidades várias de receber e acolher muito amistosamente, com carinho e bondade essas quiálteras que sempre estão a surgir em nossos compassos.
Bem, leitor amigo, no próximo encontro falaremos mais sobre Música.
Forte abraço.
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