
Com o avanço da idade, começamos a "deletar", automaticamente, certos habitantes de nossas lembranças. Arquivos apagados da pasta e do disco rígido! Ledo engano.
Sabe, caro leitor, usando o computador por analogia, quando por imprecaução nomeamos erroneamente um arquivo, enviando-o, por exemplo, para uma pasta como o Documents and Settings, que já contém dezenas de outros arquivos, certamente este sujeito que não tem muita importância para nós, lá permanecerá esquecido, como se nunca tivesse existido, até que um belo dia, vasculhando incautos essa pasta, deparamo-nos com tal figura, morta e desencarnada há séculos. É, tem jeito não, elas sempre voltam, sorrateiramente.
Agora, quando a idade avança mais um pouco... Aí sim, aquelas lembranças chatas são definitivamente apagadas, lixeira esvaziada. Nada de memórias desagradáveis nos arquivos cerebrais, só algumas, seletamente escolhidas entre as melhores. Noventa por cento apagadas. Eu, pelo menos, rendi graças a Deus e a todos os Santos por tal benefício, pelo menos que eu me lembre...
Novamente ledo engano, as lembranças voltam astuciosas, verdadeiros zumbis a nos cercarem ameaçadores, como naqueles filmes ordinários.
Tenho uma dileta amiga, bem mais idosa que eu (espero que não leia este artigo) que me garante: as lembranças são mais vivas do que nunca nesse estágio da vida. Recordamos com freqüência fatos da infância e juventude há muito passados, em detrimento de acontecimentos recentes. Não é terrível caro leitor? Ter que conviver, novamente, com um passado muitas vezes mesquinho, do qual temos ânsia, unicamente em esquecê-lo?
Talvez já esteja ficando à mercê desta situação desprezível, o certo é que há alguns anos as lembranças vêm emergindo com mais freqüência, certas vezes de forma insinuante como um livro aberto, e de formas mais impudicícias, em outras ocasiões.
Bem, têm-me assolado de tal forma essas almas penadas e com tanta lubricidade, que cheguei a criar uma página em meu blog pessoal, com este título: Lembranças, onde tento exorcizar esses habitantes de plagas longínquas. Muitas dessas recordações são bem agradáveis, claro, mas, outras nem tanto. Tratam-nos, as ordinárias, como tributários seus, e, em contrapartida, retribuo-lhes com a depascente luz solar, para que queimem, definitivamente, sua forma vampiresca, como naqueles filmes.
Nesses últimos dias, têm-me atormentado uma especial lembrança, que hoje me provoca risos, mas, nem sempre foi assim, por isso a expus ao sol, para tirar o mofo.
Durante um curso de Cravo, com um dos melhores cravistas do planeta, a quem muito admirava, e aqui devo omitir seu nome por motivos óbvios, este, logo que nos apresentamos indagou sobre que material levara para o curso, humildemente e com muita timidez, devido a pouca idade, passei a descrever-lhe, com pormenores arrazoados, o que levara: O Cravo bem Temperado Vol. I e II; as Suítes Francesas; as Suítes Inglesas; 4 Partitas (com a Obertura Francesa que tanto adorava) e mais alguma coisa, que não me lembro, de J.S.Bach, e as 25 Sonatas de Scarlatti. Todas edições da Ricordi Brasileira; Ricordi Americana (Buenos Aires) Revistas e Revisadas por Bruno Mugellini, com exceção do Cravo II, editado pela Breitkopf & Härtel (Wiesbaden) também revisada por B. Mugellini, sob o didático título de Instruktive Ausgabe von Bruno Mugellini, e também excetuando-se a revisão das Sonatas de Scarlatti, à cargo de Alessandro Longo, se não me falha a memória!
O tal professor arregalou os olhos e sentenciou: -Jogue tudo fora, no lixo, não, no lixo não, alguém pode passar e, incauto como você, pode querer apanhá-los. Queime-os todos, não servem para nada. O mal que fizeram a você, podem causar a outros!
Na época, com a pouca idade e pouco juízo (que me é escasso até os dias de hoje), não pude compreender o estrelismo complacente do grande cravista que tentara, de forma esdrúxula, ajudar-me, insinuando que partituras revisadas fogem à autenticidade e pureza da composição, sei lá! E então, questionei-me a mim, quando de volta para casa, pois imediatamente desisti do tal curso: Por que aquele músico a quem tanto admirava agira daquela forma? Por certo levara pouquíssimo material, provando estar muito aquém do elevado perfil dos alunos do mestre. Pombas, se o Cravo bem Temperado Vol.II está aquém de alguma coisa neste mundo, certamente aquele “mestre” toca é de “ouvido”! Pensei muito nos mais de dois mil quilômetros que separavam minha casa daquela escola...
Na minha região, nesta época, havia uma única importadora que supria relativamente as necessidades dos alunos de música em termos de partituras. Às vezes esperávamos meses por um livro. Numa época em que nem xerox havia... Particularmente, possuia somente partituras didáticas, geralmente herdadas de minha mãe, avó e bisavô, todos maestros e professores de piano. Como a edição do Cravo Vol. II estivesse em estado lastimável, tive que recorrer a um irmão, na Europa, para que me enviasse às pressas o tal livro, para que pudesse levá-lo ao curso.
Pobre professor de Cravo, nem de longe podia imaginar o grande sacrifício que fizera aquele tão pouco ilustrado aluno, para conseguir aquelas parcas e mal revisadas partituras. Um verdadeiro Cravo Mal Temperado.
Pronto, tendo agora exorcizado essas lembranças, poder-nos-emos encontrar, algum dia (que demore muito) no Céu, o Professor e eu. Lá tomaremos uma bela golada da melhor cachaça que no Céu houver, enquanto tocamos o Cravo bem Temperado, no Cravo, é claro.
Forte abraço.
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