
Como à maioria dos compositores eruditos, mas nem todos claro, conheci o Austríaco Franz Lehar ainda na minha meninice, mas não no Conservatório Leonie Ehret onde nasci, não. Na verdade conheci-o através de uma velha vitrola à corda, uma magnífica Paillard da primeira metade do século passado, não que seja tão velho, não.
Na casa de meus pais, como nas demais, creio, havia uma bela Victrola RCA, daquelas enormes, de madeira, em estilo barrôco(...), com duas portas laterais que escondiam os alto falantes e uma janela central que encerrava o lindo receiver valvulado, o pic-up e o container dos discos. Constituía verdadeiro sacrilégio, pôr a rodar nesta obra de arte tecnológica, os velhos discos de Cera de Carnaúba de 78 RPM, fabricados até a década de 60, quando surgiu, o elegante e tranqüilo vinil. Ora, ninguém mais os usava, muitos foram para o lixo, mesmo assim, alguns que escapavam ilesos à indignidade humana, eram proibidos de rodarem nas modernas Vitrolas eléctricas, explico: a agulha de finíssimo diamante, projetada para rodar normalmente em 33/3 rpm, rapidamente se gastaria reproduzindo os pesados 78 rpm, mesmo nos pick-ups guarnecidos com duas agulhas uma para 33, outra para 78 rpm, não se costumava rodá-los, com receio que a alta rotação aliada aos arranhões e chiados naturais aos 78 rpm, danificassem a bobina captadora.
Bem, lá em casa, além da moderna vitrola, posta na sala principal com grande ostentação, como peça de grande valor decorativo e demonstração de elevado status, escondia-se num armário da copa, com um bom número de antigos discos, uma velha vitrola à corda, era uma Paillard, lindamente revestida de couro escarlate, quando se lhe abria o tampo, deixava à mostra um interior exuberante: O braço em forma de "S", articulado bem ao meio, prateado e muito brilhante, terminado pelo reprodutor, era assim que se chamava a parte final do braço, uma espécie de diafragma metalizado que sustentava a agulha que feria o disco de cera de carnaúba, reproduzindo desta maneira o som que seria amplificado mecanicamente pelo tubo e boca de saída (pavilhão) de som, parece que estou descrevendo um artefato de outro mundo, e talvez aquele tenha sido realmente um outro mundo, começo a perceber.
O prato, local onde se punha o disco, era recoberto por um veludo muito vermelho e muito espesso pra não arranhar o disco, como se isso fosse possível. A borda prateada do prato em contraste com o veludo cor de sangue e o negro do disco sempre a girar, desde que se lhe desse-mos bastante corda, tinha em mim, menino, um efeito mágico. Quando a agulha do pesado braço enfim feria o espesso e ágil disco, iniciava-se mais uma sessão esotérica, cabalística, fabulosamente transcendental. Pra mim aquela vitrola era um espécie de portal dimensional acionado por uma tosca e mágica manivela de metal. Era, na minha imaginação de criança, a chave de ligação com o imponderável, com o desconhecido, com o fabuloso. Era uma espécie de Ascensão a planos mais sutis, causada pela música que de maneira miraculosa, emergia do nada, daquela caixa de madeira vermelha maravilhosamente misteriosa!
Essa Vitrola ainda existe hoje em dia, no Museu dum grande colecionador de Artes aqui da Região, não tenho nem coragem de ir lá. Não sei que reação teríamos, a Vitrola e eu, ao nos reencontrar-mos. Deixemos isso para uma outra existência...
Bem, esta velha vitrola, a Paillard, e esses vários discos de Cera de Carnaúba constituíram, para mim, o maior alumbramento de toda minha meninice, e com ela descobri coisas maravilhosas que jamais descobriria nos Conservatórios. Compositores estupidamente taxados pelos críticos desespecializados (e aqui já venho com meu ódio mortal aos críticos) como compositores menores, e nos conservatórios sequer citados, por não entrarem em seus programas oficiais. Além de uma variedade de compositores brilhantes e únicos em sua arte, indignamente rotulados de semi-eruditos. Semi-eruditos? Que piada...
O que importa é que esta velha vitrola me trouxe grandes alegrias e emoções, uma delas foi Franz Lehar, um dos maiores compositores Austríacos da segunda metade do século passado, autor da célebre Viúva Alegre, quem não conhece a Viúva Alegre? Pois bem, eu, conheci através da velha Paillard de 78 rpm. Já havia, a época, o vinil, mas, eu, conheci-a através dum velho 78 rpm de Cera de Carnaúba... Hoje, vários desses compositores estão, irremediavelmente, para mim, ligados à velha e bendita Paillard. Por mais que continue a ouvir suas melodias maravilhosas através de equipamentos os mais modernos, dotados de caixas acústicas fabulosas e excelentes equalizadores, o som primordial de todos eles é, ainda, para mim, aquele sonzinho sem profundidade, com poucos agudos e quase sem graves, cheio de chiados... Saído das entranhas de uma divina e transcendental Paillard!
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